Glayds Gande: Liderança Feminina que Transforma as Empresas Moçambicanas

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Num contexto global marcado por rápidas transformações económicas, crescente pressão competitiva e necessidade constante de inovação, a liderança deixou de ser apenas uma função operacional para se afirmar como um factor crítico de sustentabilidade e crescimento das organizações. Em Moçambique, este debate ganha uma dimensão estratégica adicional ao considerar o papel crescente das mulheres nos espaços de decisão e o impacto efectivo dessa presença na performance empresarial.

A ascensão da liderança feminina deixou de ser apenas uma questão de equidade — é, cada vez mais, uma questão de competitividade e de visão estratégica. Neste cenário, destaca-se a voz de Glayds Gande, cuja trajectória, construída entre o sector público, organismos multilaterais, pequenas e grandes empresas, bem como multinacionais, lhe confere uma perspectiva ampla, pragmática e profundamente contextualizada sobre o funcionamento das organizações.

A sua leitura é clara e disruptiva: não existe um modelo único de liderança. O que funciona depende da cultura organizacional, do ambiente de negócio, dos objectivos estratégicos e do público que se pretende impactar. Liderar, neste sentido, é um exercício contínuo de adaptação — a capacidade de ajustar ferramentas, decisões e abordagens às dinâmicas específicas de cada contexto. Esta visão rompe com modelos rígidos e posiciona a liderança como uma competência estratégica, dinâmica e situacional.

Ao longo do seu percurso, um dos elementos mais marcantes tem sido ocupar espaços de decisão tradicionalmente dominados por homens, sendo frequentemente a única mulher na sala. Mais do que um obstáculo, esta realidade tornou-se uma fonte de motivação e afirmação. A criação e aprovação de iniciativas como o programa Be Like a Woman reflectem esse compromisso, ao focar-se na capacitação feminina para ultrapassar o “tecto de vidro”, preparando mulheres para assumirem posições estratégicas com competências, confiança e redes de suporte estruturadas.

Apesar destes avanços, a presença feminina nos níveis mais altos das organizações em Moçambique continua a enfrentar desafios estruturais. Curiosamente, observa-se maior abertura nas empresas de matriz nacional, impulsionadas por agendas de inclusão. Em contraste, nas multinacionais e em algumas instituições públicas, as mulheres são ainda frequentemente direccionadas para funções periféricas, afastadas dos centros de decisão. Esta realidade torna-se mais evidente quando se constata a ausência de mulheres no cargo de Presidente do Conselho de Administração (PCA) em grandes empresas no país, revelando que o verdadeiro desafio permanece no topo das estruturas organizacionais.

No centro destas limitações encontra-se uma barreira persistente: a cultura. As expectativas sociais continuam a impor às mulheres uma gestão desigual entre ambição profissional e responsabilidades domésticas, condicionando, muitas vezes, o seu nível de aspiração. A escassez de referências femininas em posições de liderança reforça este ciclo, alimentando dúvidas sobre a possibilidade de alcançar — e sustentar — esses espaços.

Perante este cenário, o papel das organizações torna-se determinante. Mais do que discursos sobre inclusão, é necessário promover uma transição efectiva de uma cultura de intenção para uma cultura de mérito. Isto implica avaliar mulheres com base exclusiva nas suas competências, visão estratégica e resultados, ao mesmo tempo que se constroem ecossistemas organizacionais que reconheçam as suas especificidades e equilibrem um ambiente corporativo ainda fortemente masculinizado.

Neste processo, a integração da diversidade como parte estrutural da estratégia empresarial assume um papel central. Quando a inclusão deixa de ser apenas um ideal e passa a ser medida, monitorizada e incorporada nos indicadores de desempenho, transforma-se numa prática consistente e sustentável.

Do ponto de vista das competências, a liderança feminina exige um conjunto integrado de capacidades estratégicas. A visão de longo prazo aliada à agilidade mental permite antecipar tendências e adaptar rapidamente o rumo do negócio. A inteligência emocional e a capacidade de construir redes de influência tornam-se essenciais para gerir pressões, mediar conflitos e mobilizar recursos. A comunicação assertiva, por sua vez, garante que a visão da líder seja compreendida, valorizada e integrada nos processos de decisão.

Mais do que uma questão de representatividade, a liderança feminina introduz uma abordagem diferenciadora na gestão organizacional. Caracteriza-se por uma visão mais holística, que equilibra resultados financeiros com sustentabilidade humana e organizacional. Esta abordagem traduz-se em decisões mais ponderadas, maior coesão das equipas e uma atenção estratégica ao desenvolvimento do capital humano — factores determinantes para a resiliência das organizações em contextos de incerteza.

Os impactos desta transformação são já evidentes. A presença feminina na liderança não deve ser vista como um elemento simbólico, mas como um factor de competitividade. Evidências globais indicam que organizações com lideranças diversas apresentam maior desempenho financeiro. Em Moçambique, exemplos concretos, particularmente no sector bancário, demonstram que a introdução de mulheres em posições de topo contribuiu para a recuperação de instituições em contextos de crise, reforçando a sua capacidade de gestão de risco, inovação e credibilidade no mercado.

Neste percurso, a mentoria assume-se como um instrumento estratégico de aceleração. Mais do que orientação, permite às futuras líderes compreender as dinâmicas informais das organizações, navegar nos centros de decisão e transformar competência técnica em influência executiva. Trata-se de um mecanismo essencial para encurtar a curva de aprendizagem e fortalecer a confiança necessária para assumir posições de responsabilidade.

O futuro da liderança feminina em Moçambique dependerá, em grande medida, da capacidade de estruturar sistemas consistentes de desenvolvimento e sucessão. A inclusão obrigatória de mulheres em programas de liderança, a criação de pipelines robustos e o estabelecimento de mecanismos de patrocínio corporativo são passos fundamentais para garantir uma transformação sistémica e sustentável.

Para Glayds Gande, o verdadeiro sinal de maturidade do tecido empresarial será alcançado quando a liderança feminina deixar de ser um tema de debate e passar a ser uma realidade natural. Até lá, o caminho exige preparação contínua, consistência e uma mudança profunda na forma como as organizações identificam, desenvolvem e valorizam o talento.

A liderança feminina em Moçambique não é apenas uma tendência — é uma transformação estrutural em curso. Uma transformação que não só redefine o papel das mulheres nas organizações, mas também reposiciona a própria lógica de criação de valor nas empresas, tornando-as mais resilientes, inclusivas e preparadas para o futuro.