Etiqueta: Mulher

  • Glayds Gande: Liderança Feminina que Transforma as Empresas Moçambicanas

    Glayds Gande: Liderança Feminina que Transforma as Empresas Moçambicanas

    Num contexto global marcado por rápidas transformações económicas, crescente pressão competitiva e necessidade constante de inovação, a liderança deixou de ser apenas uma função operacional para se afirmar como um factor crítico de sustentabilidade e crescimento das organizações. Em Moçambique, este debate ganha uma dimensão estratégica adicional ao considerar o papel crescente das mulheres nos espaços de decisão e o impacto efectivo dessa presença na performance empresarial.

    A ascensão da liderança feminina deixou de ser apenas uma questão de equidade — é, cada vez mais, uma questão de competitividade e de visão estratégica. Neste cenário, destaca-se a voz de Glayds Gande, cuja trajectória, construída entre o sector público, organismos multilaterais, pequenas e grandes empresas, bem como multinacionais, lhe confere uma perspectiva ampla, pragmática e profundamente contextualizada sobre o funcionamento das organizações.

    A sua leitura é clara e disruptiva: não existe um modelo único de liderança. O que funciona depende da cultura organizacional, do ambiente de negócio, dos objectivos estratégicos e do público que se pretende impactar. Liderar, neste sentido, é um exercício contínuo de adaptação — a capacidade de ajustar ferramentas, decisões e abordagens às dinâmicas específicas de cada contexto. Esta visão rompe com modelos rígidos e posiciona a liderança como uma competência estratégica, dinâmica e situacional.

    Ao longo do seu percurso, um dos elementos mais marcantes tem sido ocupar espaços de decisão tradicionalmente dominados por homens, sendo frequentemente a única mulher na sala. Mais do que um obstáculo, esta realidade tornou-se uma fonte de motivação e afirmação. A criação e aprovação de iniciativas como o programa Be Like a Woman reflectem esse compromisso, ao focar-se na capacitação feminina para ultrapassar o “tecto de vidro”, preparando mulheres para assumirem posições estratégicas com competências, confiança e redes de suporte estruturadas.

    Apesar destes avanços, a presença feminina nos níveis mais altos das organizações em Moçambique continua a enfrentar desafios estruturais. Curiosamente, observa-se maior abertura nas empresas de matriz nacional, impulsionadas por agendas de inclusão. Em contraste, nas multinacionais e em algumas instituições públicas, as mulheres são ainda frequentemente direccionadas para funções periféricas, afastadas dos centros de decisão. Esta realidade torna-se mais evidente quando se constata a ausência de mulheres no cargo de Presidente do Conselho de Administração (PCA) em grandes empresas no país, revelando que o verdadeiro desafio permanece no topo das estruturas organizacionais.

    No centro destas limitações encontra-se uma barreira persistente: a cultura. As expectativas sociais continuam a impor às mulheres uma gestão desigual entre ambição profissional e responsabilidades domésticas, condicionando, muitas vezes, o seu nível de aspiração. A escassez de referências femininas em posições de liderança reforça este ciclo, alimentando dúvidas sobre a possibilidade de alcançar — e sustentar — esses espaços.

    Perante este cenário, o papel das organizações torna-se determinante. Mais do que discursos sobre inclusão, é necessário promover uma transição efectiva de uma cultura de intenção para uma cultura de mérito. Isto implica avaliar mulheres com base exclusiva nas suas competências, visão estratégica e resultados, ao mesmo tempo que se constroem ecossistemas organizacionais que reconheçam as suas especificidades e equilibrem um ambiente corporativo ainda fortemente masculinizado.

    Neste processo, a integração da diversidade como parte estrutural da estratégia empresarial assume um papel central. Quando a inclusão deixa de ser apenas um ideal e passa a ser medida, monitorizada e incorporada nos indicadores de desempenho, transforma-se numa prática consistente e sustentável.

    Do ponto de vista das competências, a liderança feminina exige um conjunto integrado de capacidades estratégicas. A visão de longo prazo aliada à agilidade mental permite antecipar tendências e adaptar rapidamente o rumo do negócio. A inteligência emocional e a capacidade de construir redes de influência tornam-se essenciais para gerir pressões, mediar conflitos e mobilizar recursos. A comunicação assertiva, por sua vez, garante que a visão da líder seja compreendida, valorizada e integrada nos processos de decisão.

    Mais do que uma questão de representatividade, a liderança feminina introduz uma abordagem diferenciadora na gestão organizacional. Caracteriza-se por uma visão mais holística, que equilibra resultados financeiros com sustentabilidade humana e organizacional. Esta abordagem traduz-se em decisões mais ponderadas, maior coesão das equipas e uma atenção estratégica ao desenvolvimento do capital humano — factores determinantes para a resiliência das organizações em contextos de incerteza.

    Os impactos desta transformação são já evidentes. A presença feminina na liderança não deve ser vista como um elemento simbólico, mas como um factor de competitividade. Evidências globais indicam que organizações com lideranças diversas apresentam maior desempenho financeiro. Em Moçambique, exemplos concretos, particularmente no sector bancário, demonstram que a introdução de mulheres em posições de topo contribuiu para a recuperação de instituições em contextos de crise, reforçando a sua capacidade de gestão de risco, inovação e credibilidade no mercado.

    Neste percurso, a mentoria assume-se como um instrumento estratégico de aceleração. Mais do que orientação, permite às futuras líderes compreender as dinâmicas informais das organizações, navegar nos centros de decisão e transformar competência técnica em influência executiva. Trata-se de um mecanismo essencial para encurtar a curva de aprendizagem e fortalecer a confiança necessária para assumir posições de responsabilidade.

    O futuro da liderança feminina em Moçambique dependerá, em grande medida, da capacidade de estruturar sistemas consistentes de desenvolvimento e sucessão. A inclusão obrigatória de mulheres em programas de liderança, a criação de pipelines robustos e o estabelecimento de mecanismos de patrocínio corporativo são passos fundamentais para garantir uma transformação sistémica e sustentável.

    Para Glayds Gande, o verdadeiro sinal de maturidade do tecido empresarial será alcançado quando a liderança feminina deixar de ser um tema de debate e passar a ser uma realidade natural. Até lá, o caminho exige preparação contínua, consistência e uma mudança profunda na forma como as organizações identificam, desenvolvem e valorizam o talento.

    A liderança feminina em Moçambique não é apenas uma tendência — é uma transformação estrutural em curso. Uma transformação que não só redefine o papel das mulheres nas organizações, mas também reposiciona a própria lógica de criação de valor nas empresas, tornando-as mais resilientes, inclusivas e preparadas para o futuro.

  • Érica Rosalina: Engenharia, Visão e Empreendedorismo com Impacto

    Érica Rosalina: Engenharia, Visão e Empreendedorismo com Impacto

    Num contexto em que o empreendedorismo exige cada vez mais inovação, consistência e capacidade de adaptação, surgem perfis que combinam conhecimento técnico com visão estratégica para criar negócios com propósito. É neste enquadramento que se destaca Érica Rosalina, engenheira de processos industriais e empreendedora que tem vindo a afirmar o seu percurso através da criação de iniciativas orientadas para impacto, qualidade e valorização pessoal.

    A sua trajectória no empreendedorismo não nasceu de uma oportunidade isolada, mas de uma inquietação interna — o desejo de fazer mais, de criar algo próprio e de gerar impacto real na vida das pessoas. Apesar de possuir uma base sólida na área industrial, Érica sentia que podia ir além do percurso convencional, construindo projectos que respondessem a necessidades concretas do mercado, especialmente ligadas ao bem-estar, à autoestima e à valorização individual, como a marca do chá Kika, a sua nova aposta no mercado.

    A sua formação académica e experiência profissional desempenharam um papel determinante na forma como estruturou os seus negócios. A engenharia de processos e o controlo de qualidade incutiram-lhe uma mentalidade orientada para a eficiência, organização e melhoria contínua. Estes princípios foram incorporados nos seus projectos, garantindo consistência, credibilidade e foco na excelência — elementos essenciais para a construção de marcas sustentáveis.

    Os seus empreendimentos surgem, assim, da capacidade de observar o mercado e identificar lacunas. Mais do que comercializar produtos, Érica procurou criar soluções que transmitissem uma mensagem mais profunda: a importância do cuidado pessoal, da autoestima e da confiança. Esta abordagem diferenciadora permitiu-lhe posicionar-se não apenas como empresária, mas como promotora de transformação individual e social.

    Contudo, o caminho não esteve isento de desafios. Tal como muitos empreendedores em contextos emergentes, enfrentou limitações de recursos, dificuldades na construção de credibilidade e a necessidade constante de aprendizagem. A transição entre o conhecimento técnico e as exigências do mercado — incluindo gestão, estratégia e relacionamento com clientes — exigiu disciplina, resiliência e capacidade de adaptação

    Para Érica, ser uma mulher líder no contexto empresarial moçambicano vai além da gestão de um negócio. Significa representar possibilidades, abrir caminhos e desafiar padrões estabelecidos. A liderança feminina, na sua visão, carrega também uma dimensão de responsabilidade: inspirar outras mulheres a acreditarem no seu potencial e a construírem os seus próprios percursos. Entre as características essenciais para uma liderança transformadora, destacam-se a autoconfiança, a empatia, a resiliência e a visão estratégica, aliadas à capacidade de ouvir, aprender e evoluir continuamente .

    O impacto do seu trabalho estende-se para além do negócio. Ao partilhar a sua experiência — incluindo desafios e conquistas — Érica tem contribuído para inspirar jovens e mulheres a entrarem no mundo do empreendedorismo. Acredita que o exemplo é uma das formas mais poderosas de influência e que o empreendedorismo desempenha um papel central no desenvolvimento económico e social, através da criação de empregos, da promoção da inovação e da geração de soluções locais para desafios locais.

    Ao longo da sua jornada, uma das lições mais marcantes foi compreender que a consistência supera a perfeição. Para Érica, o crescimento não depende de começar com condições ideais, mas sim da disciplina e do compromisso em melhorar continuamente. Os momentos de incerteza, especialmente no início, foram determinantes para fortalecer a sua resiliência e reafirmar o seu propósito enquanto empreendedora.

    O futuro aponta para a expansão e consolidação dos seus projectos, com foco no fortalecimento da marca, no estabelecimento de parcerias estratégicas e no investimento na produção local. Paralelamente, mantém o compromisso de desenvolver iniciativas que continuem a gerar impacto positivo na comunidade, reforçando o papel do empreendedorismo como instrumento de transformação social.

    A sua mensagem para outras mulheres é clara: começar com o que se tem. Num ambiente onde as condições ideais raramente existem, a acção torna-se o primeiro passo essencial. Investir no conhecimento, manter consistência e acreditar no próprio valor são, para Érica Rosalina, os pilares fundamentais para construir um negócio e uma trajectória de sucesso.

    Mais do que uma engenheira ou empresária, Érica representa uma nova geração de mulheres moçambicanas que unem conhecimento, propósito e acção para construir soluções, criar oportunidades e transformar realidades.

  • Sónia das Sonyas: Empreendedorismo com Coragem e Propósito

    Sónia das Sonyas: Empreendedorismo com Coragem e Propósito

    No universo do empreendedorismo moçambicano, existem histórias que não começam com oportunidade — começam com necessidade. A trajetória de Sónia das Sonyas é um exemplo marcante de como a resiliência, a criatividade e a determinação podem transformar circunstâncias difíceis em caminhos de sucesso.

    Desde muito cedo, o empreendedorismo não foi uma escolha, mas uma questão de sobrevivência. Ainda criança, com apenas oito anos, Sónia já acompanhava a sua mãe no mercado, ajudando na venda de bananas e outros produtos. Entre a escola e o mercado, começou a desenvolver o seu espírito comercial, vendendo também os seus próprios produtos. Foi assim que, ainda jovem, conseguiu conquistar pequenas vitórias, como comprar a sua primeira roupa com o seu próprio esforço .

    Ao longo dos anos, foi experimentando diferentes actividades — desde a venda de bolinhos e doces, até à produção artesanal de acessórios. Contudo, um dos momentos mais difíceis da sua vida marcou também uma viragem decisiva: a perda da mãe. Forçada a abandonar os estudos, teve de recomeçar do zero, viajando para o Zimbabwe para adquirir produtos e revendê-los na Beira, enfrentando desafios como longas jornadas, clientes inadimplentes e a necessidade de encontrar um negócio sustentável.

    A sua caminhada foi marcada por reinvenção constante. Vendeu frutas, legumes, carvão, roupas e produtos personalizados. Enfrentou momentos de falência e dificuldades pessoais, incluindo a maternidade em condições adversas. Ainda assim, nunca deixou de procurar novas formas de recomeçar.

    Um dos pontos de viragem surgiu de um gesto simples: ao receber dinheiro para o almoço, decidiu investir em peças de roupa para revenda. A estratégia revelou-se lucrativa e, com disciplina e consistência, conseguiu acumular capital suficiente para investir no seu primeiro fardo de roupas e num manequim. Assim nasceu a Ebenezer Creative, um projecto que viria a transformar a sua vida.

    Com uma visão inovadora, Sónia identificou uma oportunidade clara: muitas mulheres não tinham tempo ou disposição para ir ao mercado. Criou então um modelo de negócio baseado em conveniência e valor acrescentado — venda ao domicílio, roupas lavadas, passadas e prontas a usar. Para além disso, introduziu estratégias como consultoria de moda, personalização de peças e criação de grupos VIP de clientes, estimulando a fidelização e o crescimento contínuo do negócio .

    Hoje, Sónia é uma das maiores fornecedoras de roupas usadas no país, com distribuição para todas as províncias de Moçambique e presença em mercados internacionais como Zimbabwe, Zâmbia, Malawi, Tanzânia e, ocasionalmente, África do Sul. Lidera uma rede de revendedores — na sua maioria mulheres — com destaque para um grupo com cerca de 700 integrantes, que encontram nela uma fonte de inspiração e oportunidade económica.

    Para além do impacto económico, o seu trabalho tem uma forte dimensão social. Sónia emprega colaboradores, oferece mentoria a jovens empreendedores e participa em acções sociais, consolidando o seu papel como agente de transformação na comunidade. O empreendedorismo permitiu-lhe alcançar conquistas significativas, como construir a sua casa, adquirir bens, proporcionar educação de qualidade aos filhos e expandir horizontes pessoais e profissionais.

    Contudo, o caminho não esteve isento de desafios. Entre as dificuldades destacam-se o assédio no ambiente de negócios, a desvalorização da mulher em certos sectores e as burlas financeiras. Ainda assim, Sónia mantém uma visão firme: o sucesso exige foco, coragem, perseverança e, acima de tudo, a capacidade de nunca desistir .

    A sua maior lição foi aprender a escolher as pessoas certas para fazer negócios, após experiências negativas que lhe custaram perdas significativas. Apesar dos momentos de desânimo, nunca considerou desistir. A sua motivação vem do inconformismo — a crença de que é sempre possível fazer melhor —, da fé e do desejo de proporcionar um futuro melhor para os seus filhos .

    O futuro, para Sónia, passa pela expansão do negócio para lojas físicas em todo o país, pela internacionalização com novos fornecedores e pela concretização de um sonho social: criar uma escola de artes com base em materiais recicláveis, voltada para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade .

    A sua mensagem para outras mulheres é clara e directa: é preciso dar o primeiro passo. Num mundo onde as oportunidades nem sempre são dadas, criar o próprio caminho torna-se essencial. Com o apoio das ferramentas digitais e das redes sociais, Sónia acredita que nunca houve um momento tão propício para transformar ideias em realidade.

    A história de Sónia das Sonyas não é apenas sobre negócios. É sobre superação, visão e impacto. É a prova de que, mesmo nos contextos mais desafiadores, o empreendedorismo pode ser um instrumento poderoso de transformação pessoal e colectiva.

  • Sheila Simango: Visão e Coragem para Construir Negócios com Impacto

    Sheila Simango: Visão e Coragem para Construir Negócios com Impacto

    O empreendedorismo feminino em Moçambique tem vindo a afirmar-se como uma força crescente no desenvolvimento económico local, impulsionado por mulheres que transformam ambição em acção e desafios em oportunidades. Entre estas histórias de construção e impacto destaca-se Sheila Simango, uma empreendedora cuja trajectória combina visão, resiliência e compromisso com a criação de valor para a sua comunidade.

    A sua jornada no mundo dos negócios iniciou-se há cerca de nove anos, de forma simples, mas estratégica: vendendo roupas para colegas na universidade. O que começou como uma actividade informal rapidamente evoluiu para um projecto estruturado, com a criação do seu primeiro espaço, inicialmente focado em salão e boutique, e posteriormente expandido para a área de estética. Desde o início, Sheila demonstrou uma motivação clara: não apenas gerar rendimento, mas construir algo próprio com impacto real na vida das pessoas, particularmente das mulheres.

    A decisão de empreender foi também impulsionada por um momento de viragem pessoal. Ao perceber que o trabalho tradicional limitava a sua capacidade de crescimento, optou por seguir um caminho independente, assumindo os riscos e responsabilidades inerentes ao empreendedorismo. Essa escolha resultou na criação da marca Fancy Store, em 2018, consolidando a sua presença no sector da beleza e bem-estar.

    A sua visão estratégica permitiu-lhe identificar uma oportunidade clara no mercado: a crescente procura por serviços de estética de qualidade, combinados com atendimento personalizado. Mais do que oferecer produtos ou serviços isolados, Sheila apostou na criação de uma experiência integrada, reunindo salão, boutique e spa num único conceito. Esta abordagem diferenciadora contribuiu para o posicionamento da sua marca e para a construção de uma base sólida de clientes.

    Como em muitos percursos empreendedores, os desafios foram uma constante. A limitação de recursos financeiros, a necessidade de construir credibilidade e a falta de experiência inicial em gestão representaram obstáculos significativos. Um dos aspectos mais críticos foi a dificuldade em separar as finanças pessoais das finanças do negócio, situação comum entre empreendedores em fases iniciais. Paralelamente, conciliar a vida pessoal — especialmente enquanto mãe — com as exigências do negócio exigiu equilíbrio, disciplina e resiliência.

    Apesar destes desafios, o impacto do seu trabalho tornou-se evidente. Através dos seus negócios, Sheila tem contribuído para a criação de empregos e para a capacitação de jovens, com especial enfoque em mulheres. Para além disso, a sua própria trajectória serve como exemplo de que é possível começar com recursos limitados e construir algo significativo através da consistência e dedicação. Esta capacidade de inspirar outras pessoas reforça o seu papel como agente de transformação no contexto local.

    A sua liderança estende-se também ao campo institucional. Enquanto Delegada Provincial da ANJE em Manica, Sheila tem desempenhado um papel activo na promoção do empreendedorismo jovem, facilitando o acesso a redes, oportunidades e conhecimento. Para si, liderar significa mais do que crescer individualmente: é criar impacto colectivo, abrir caminhos e contribuir para o desenvolvimento de outros empreendedores.

    Na sua perspectiva, as mulheres desempenham um papel fundamental no desenvolvimento económico local. São agentes resilientes, criativos e frequentemente responsáveis pelo sustento das suas famílias. Quando uma mulher alcança autonomia económica, o impacto estende-se à família e à comunidade, reforçando a importância do empreendedorismo feminino como motor de transformação social.

    Ao longo da sua trajectória, uma das principais lições foi compreender que o crescimento exige tempo, consistência e respeito pelo processo. Nem sempre os resultados surgem de forma imediata, mas a persistência e a dedicação acabam por gerar frutos. Momentos difíceis, como os desafios iniciais e o impacto da pandemia da COVID-19 — que chegou a forçar o encerramento temporário do negócio — foram superados através da reinvenção e da força do propósito.

    O futuro de Sheila Simango passa pela expansão e consolidação dos seus negócios, com foco no fortalecimento da marca Fancy Store e na continuidade do seu trabalho de apoio a jovens empreendedores. A sua visão mantém-se alinhada com o desenvolvimento de soluções que combinem crescimento económico com impacto social.

    A sua mensagem para outras mulheres é clara e pragmática: começar com o que se tem. Num contexto onde as condições ideais raramente existem, a acção torna-se o elemento decisivo. Acreditar em si mesma, manter consistência e não temer o erro são, para Sheila, os pilares fundamentais para construir uma trajectória de sucesso.

    A história de Sheila Simango demonstra que o empreendedorismo não é apenas sobre negócios — é sobre liderança, propósito e transformação. É a prova de que, com visão e coragem, é possível construir não apenas empresas, mas também caminhos para outras mulheres seguirem.

  • Yara Cuembelo e a YAH: Criatividade, Sabores e Empreendedorismo com Identidade

    Yara Cuembelo e a YAH: Criatividade, Sabores e Empreendedorismo com Identidade

    Num mercado cada vez mais competitivo, onde muitas ideias parecem repetir-se, a diferença está, muitas vezes, na forma como se observa uma oportunidade, se constrói uma marca e se transforma um produto simples numa experiência memorável. Foi a partir dessa sensibilidade que nasceu a YAH, uma marca beirense que vem ganhando espaço ao unir sumos naturais, cocktails, criatividade e uma identidade visual forte.

    À frente do projecto está Yara Cuembelo, que encontrou no empreendedorismo uma forma de aplicar a sua experiência profissional, explorar a criatividade e responder a uma necessidade concreta do mercado. O que começou com a venda de sumos naturais evoluiu para uma marca associada a frescura, eventos, inovação e momentos especiais.

    Nesta entrevista, Yara partilha o percurso que deu origem à YAH, os desafios de empreender sendo mulher num sector exigente, a importância da consistência física e digital, e a visão que tem para o futuro de uma marca que nasceu para marcar momentos.

    Yara Cuembelo, residente na cidade da Beira, não chegou ao empreendedorismo por um caminho inicialmente planeado. Aos 28 anos, formada em Gestão de Marketing e Relações Públicas pela Universidade Católica de Moçambique, construiu a sua base profissional no universo da comunicação, da marca e do relacionamento com o público.

    Antes mesmo de concluir a licenciatura, em 2019, já actuava como técnica de marketing numa empresa do sector da restauração, experiência que lhe permitiu aplicar, na prática, os princípios fundamentais da área em que se formou. Ao longo de seis anos no mercado de trabalho, Yara manteve-se ligada ao marketing, desenvolvendo competências em posicionamento, comunicação, atendimento, experiência do cliente e construção de valor.

    Apesar desse percurso, nunca imaginou que um dia se tornaria empreendedora, muito menos num sector ligado à mixologia e aos sumos naturais. No entanto, em 2024, essa trajectória ganhou um novo rumo com o nascimento da YAH, uma marca que viria a juntar criatividade, experiência, identidade visual e uma nova forma de olhar para bebidas em eventos.

    “Eu nunca imaginei que um dia seria empreendedora, e muito menos na área de mixologia e sumos naturais, até que em 2024 nasceu a YAH”, recorda.

    A ideia de negócio nasceu de uma observação simples, mas reveladora: a capacidade de escutar o mercado onde outros apenas passam. Num dia comum, ao sair do ginásio, Yara ouviu algumas pessoas comentarem que não havia uma opção fresca e natural para beber antes ou depois dos treinos. Para ela, aquele comentário mostrou que boas oportunidades de negócio podem nascer de necessidades quotidianas, desde que o empreendedor esteja atento ao mercado.

    “Foi aí que percebi que é importante estarmos sensíveis e atentos para identificar oportunidades de negócio que resolvam a dor do cliente”, afirma.

    Foi assim que decidiu dar o primeiro passo, comprando uma máquina de sumo de cana e iniciando aquilo que viria a tornar-se a YAH.

    O nome YAH nasce da própria identidade de Yara, mas com uma intenção clara de marca. Embora tenha origem no seu nome, a empreendedora não queria criar uma designação demasiado óbvia, como “sumos da Yara”. Procurava algo curto, memorável e capaz de ficar facilmente na mente das pessoas.

    A escolha ganhou ainda mais força por se tratar de uma expressão familiar no quotidiano moçambicano. “Yah” é uma palavra presente na linguagem informal, usada naturalmente em conversas diárias, o que torna a marca próxima, simples e fácil de recordar.

    “O nome YAH vem do meu próprio nome, Yara, mas eu queria algo que ficasse facilmente na mente das pessoas. A palavra ‘Yah’ já faz parte do vocabulário dos moçambicanos. Penso que ninguém em Moçambique passa um dia sem dizer ‘Yah’”, explica.

    Com este nome, Yara pretende transmitir autenticidade, criatividade e uma presença feminina forte no mercado de sumos naturais e cocktails.

    O início da YAH, porém, foi marcado por limitações financeiras e muita persistência. Na altura, Yara tinha apenas dinheiro suficiente para comprar uma máquina em segunda mão. Para completar a estrutura inicial do negócio, vendeu arranjos de plantas naturais e, pouco a pouco, conseguiu adquirir a mesa, os acessórios, os copos, as palhinhas, os colantes personalizados e os elementos visuais que dariam identidade à marca.

    Foram cerca de cinco meses a juntar recursos e organizar cada detalhe antes de colocar o negócio em funcionamento. No princípio, as vendas eram reduzidas, mas a persistência foi essencial. Depois do primeiro mês, a marca começou a ganhar visibilidade, despertando curiosidade e atraindo novos clientes.

    Contudo, o maior desafio da YAH não esteve apenas nas limitações financeiras, no produto ou na aceitação do mercado, mas na construção de uma equipa capaz de acompanhar a visão da marca. Para Yara, a mão-de-obra tem sido, desde o início, um dos principais obstáculos ao crescimento do negócio.

    A dificuldade em encontrar colaboradores comprometidos, responsáveis e alinhados com o padrão de qualidade da marca limita a expansão. Como fundadora, Yara sente a necessidade de estar presente em vários momentos da operação, tanto para garantir a qualidade do serviço como porque os clientes se sentem mais seguros quando a vêem directamente envolvida na experiência.

    “O maior desafio desde o início até hoje é a mão-de-obra. É muito difícil encontrar trabalhadores comprometidos a nível local. Isso dificulta a expansão do negócio, porque, como fundadora, tenho de estar sempre presente. Não é fácil delegar funções quando a mão-de-obra ainda deixa muito a desejar”, explica.

    Para ultrapassar esse desafio, Yara tem apostado na selecção, contratação e formação de colaboradores, procurando estruturar uma equipa capaz de acompanhar o crescimento da YAH sem comprometer a qualidade, a identidade e a experiência que a marca entrega aos clientes.

    Inicialmente, a YAH nasceu com foco nos sumos naturais, mas rapidamente evoluiu para uma proposta mais ampla, integrando cocktails e serviços para eventos. Esta transição resultou da criatividade de Yara e da vontade de explorar a cana-de-açúcar como matéria-prima diferenciadora, transformando um produto simples em bebidas com identidade própria.

    Numa primeira fase, surgiram as “canarinhas” de maracujá e limão, bem como a “cana colada”, todas preparadas com base na cana-de-açúcar. Com o tempo, a exigência dos clientes levou Yara a aprofundar conhecimentos e a introduzir outros cocktails, mas a canarinha de maracujá continua a ser um dos produtos mais procurados da marca.

    “Temos vindo a adaptar-nos dia após dia. A princípio, a YAH foi concebida apenas para sumos naturais, mas depois tive a ideia de usar a cana-de-açúcar como matéria-prima para fazer cocktails aos finais de semana”, explica.

    Hoje, essa capacidade de adaptação permite à YAH atender públicos diferentes: clientes que procuram sumos naturais para eventos e outros que desejam cocktails personalizados para tornar as celebrações mais marcantes.

    Num mercado onde já existem vários pontos de venda de sumos, Yara acredita que o verdadeiro diferencial da YAH está na autenticidade da marca e na forma como transforma uma matéria-prima comum numa experiência diferenciada. Desde o início, ouviu comentários de quem dizia que “sumo de cana toda a gente faz” e que esse tipo de negócio dificilmente teria retorno. Em vez de encarar essa percepção como limitação, usou-a como motivação para inovar.

    “Sempre digo que o maior diferencial do nosso negócio somos nós mesmos. A autenticidade da YAH é o que a destaca de outras marcas. Eu criei a YAH para ser uma revolução na área dos sumos de cana, para mostrar que é possível usar essa matéria-prima valiosa para criar sabores e experiências únicas para o público”, afirma.

    Foi nesse processo que a marca desenvolveu combinações próprias, como sumo de cana com coco, malambe, tamarindo e frutos vermelhos, sabores que se tornaram parte da identidade da YAH e continuam a ter grande aceitação junto dos clientes.

    Por outro lado, a introdução do sumo de cana como base para cocktails surgiu de uma inspiração simples e criativa. Ao observar a composição de bebidas populares, como a caipirinha, tradicionalmente feita com cachaça, limão e açúcar, Yara percebeu que poderia substituir o açúcar pelo sumo natural da cana, criando uma bebida mais fresca, com identidade própria e ligação directa à marca.

    “A ideia surgiu no intuito de aproveitar a matéria-prima que já usávamos nos sumos. Afinal, a caipirinha é feita de cachaça, limão e açúcar. Foi só uma questão de substituir o açúcar pelo sumo de cana”, explica.

    A partir dessa capacidade de transformar a cana-de-açúcar em diferentes experiências, a YAH procura equilibrar inovação, autenticidade e qualidade em cada detalhe. Para Yara, não basta criar novos sabores; é preciso cuidar da apresentação, do atendimento, da frescura dos ingredientes e da forma como cada bebida se integra ao momento do cliente.

    “Equilibramos inovação, autenticidade e qualidade unindo presença digital estratégica, experiência personalizada e cuidado com o produto entregue”, afirma.

    Essa combinação entre criatividade, comunicação e atenção ao detalhe tem sido uma das bases da diferenciação da YAH no mercado. A receptividade do público beirense tem sido um dos sinais mais encorajadores desse posicionamento. A aceitação superou as expectativas iniciais e reforçou a confiança de Yara na proposta da marca.

    “A resposta do público tem sido positiva, melhor do que esperávamos. Claro que não temos como agradar a todos, mas Deus tem-nos abençoado com clientes muito bons, que apostam e apoiam os nossos produtos e serviços”, afirma.

    Para a empreendedora, esse apoio tem sido fundamental para fortalecer a marca e continuar a aperfeiçoar os produtos, o atendimento e a experiência entregue em cada evento.

    A aceitação do público foi acompanhada por momentos que marcaram a consolidação da YAH e reforçaram a confiança de Yara no caminho escolhido. Um dos mais simbólicos foi o primeiro dia de vendas, em 2024, na légua da Cornelder, oportunidade aberta com o apoio de Chabelli Gonçalves.

    “Foi muito estratégico inaugurar a YAH naquele evento. Conseguimos fazer uma boa publicidade logo de primeira, muitos participantes aderiram aos sumos e deram feedbacks positivos. E tivemos a honra de receber o Governador da cidade da Beira no nosso stand, foi mesmo uma bênção”, recorda.

    Depois vieram outros marcos importantes: a presença na muralha, um espaço estratégico e difícil de conquistar, e o primeiro casamento em que a YAH prestou serviços de cocktails, experiência que abriu portas no mercado de eventos. Para Yara, esses momentos confirmaram que a marca não estava apenas a vender bebidas, mas a construir presença, reputação e ligação com o público.

    A construção dessa presença, reputação e ligação com o público não acontece por acaso. Para Yara, empreender no sector criativo e de eventos, sobretudo num mercado desafiante como o da Beira, exige mais do que uma boa ideia: exige estudo, observação e capacidade de diferenciação.

    “É preciso fazer pesquisa de mercado, perceber como a concorrência trabalha e como podemos destacar-nos. Também é importante desenvolver habilidades de marketing e design gráfico, pesquisar tendências e aprender sobre o comportamento de compra do consumidor”, explica.

    Na sua visão, ferramentas digitais como aplicações de design, YouTube e TikTok podem ser grandes aliadas para aprender, testar ideias, acompanhar tendências e manter a marca actualizada.

    Essa capacidade de estudar o mercado e diferenciar-se torna-se ainda mais importante num percurso que, para Yara, também é atravessado pelos desafios de ser mulher empreendedora em Moçambique. No sector da coquetelaria, tradicionalmente mais associado à presença masculina, a fundadora da YAH sente que, por vezes, precisa provar competência antes mesmo de apresentar o seu trabalho.

    “É mesmo desafiador empreender em Moçambique, mas ser mulher empreendedora é ainda mais desafiante. A área de coquetelaria tem sido mais dominada por homens, então ser mulher nesta área gera dúvidas”, afirma.

    Ainda assim, Yara mantém uma postura firme e profissional. Quando está sozinha, procura não dar espaço a abordagens que desviem o foco do trabalho; e, quando trabalha ao lado do marido, essa presença acaba por criar uma barreira natural. Para ela, liderar a YAH exige criatividade, mas também segurança, firmeza e compromisso com a visão da marca.

    Para sustentar essa firmeza no mercado, Yara destaca a consistência e a disciplina como pilares do crescimento da YAH. Em apenas dois anos, a marca conquistou visibilidade e reconhecimento porque manteve presença regular, tanto no espaço físico como no digital.

    “Nem todos os dias acordamos motivados para trabalhar, mas devemos fazer a nossa parte todos os dias. A consistência e a disciplina levam-nos a lugares onde a motivação, sozinha, nunca nos levaria”, afirma.

    Na prática, essa consistência significa abrir a banca com regularidade, cumprir horários, manter a qualidade dos produtos e comunicar de forma activa nas redes sociais. Para Yara, a disciplina da YAH não está apenas na produção dos sumos ou cocktails, mas também na capacidade de permanecer visível, criar ligação com o público e ocupar espaço na memória dos clientes.

    Para Yara, a visibilidade também é parte essencial desse processo de crescimento. Plataformas como a Revista Negócios no Chiveve ajudam a dar espaço a empreendedores, marcas locais e histórias que precisam de ser conhecidas, valorizadas e apoiadas pelo mercado.

    É nesta lógica que deixa uma mensagem às jovens mulheres que desejam transformar talentos e paixões em negócios sustentáveis: acreditar no próprio sonho, mesmo quando o apoio externo ainda não aparece. Para a empreendedora, muitas pessoas só começam a apoiar quando os resultados se tornam visíveis; por isso, é fundamental ter clareza, fé e compromisso com aquilo que se pretende construir.

    “Nada é tão nosso quanto os nossos sonhos, e só nós podemos realizá-los. É importante perceber que nem todos à nossa volta vão partilhar da mesma visão. Muitas vezes, as pessoas começam a apoiar depois de tudo começar a dar certo”, afirma.

    Para Yara, entregar os planos nas mãos de Deus não significa esperar passivamente, mas agir com disciplina, coragem e persistência.

    “Entregue tudo nas mãos de Deus, e faça a sua parte”, aconselha.

    Para fechar, Yara olha para o futuro com discrição, mas também com ambição. Sem revelar todos os planos, afirma que visualiza a YAH num patamar muito maior, como uma marca capaz de crescer, consolidar-se e orgulhar os moçambicanos, sem perder a essência criativa que a originou.

    “Visualizo a YAH grande, muito maior do que é actualmente. Mas não gosto muito de dar spoiler do futuro. Vai acontecer muita coisa boa, que será motivo de orgulho para muitos moçambicanos”, afirma.

    Mais do que expandir produtos ou serviços, Yara quer fortalecer a YAH como uma marca de experiências, identidade e memória. Por isso, resume o propósito da marca numa frase simples: “A YAH nasceu para marcar momentos.” A trajectória de Yara Cuembelo mostra que o empreendedorismo nasce, muitas vezes, da capacidade de observar o quotidiano com atenção e transformar necessidades simples em experiências diferenciadas. Com a YAH, a empreendedora prova que criatividade, consistência e identidade podem dar novo valor a um produto comum, tornando-o memorável para o público. Entre sumos naturais, cocktails e eventos, a marca afirma-se não apenas pelo que serve, mas pela forma como marca momentos, valoriza a inovação local e inspira outros jovens a acreditarem que, mesmo num mercado desafiante, é possível construir negócios com autenticidade, visão e propósito.

  • Marlene de Sousa: Uma Mulher com a Vida resumida em Recursos Humanos

    Marlene de Sousa: Uma Mulher com a Vida resumida em Recursos Humanos

    Aos 31 anos, Marlene de Sousa construiu um percurso profissional que faz dos Recursos Humanos muito mais do que uma área de actuação: fez deles uma missão. Natural de Quelimane, é licenciada em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos e mestrado em Políticas de Desenvolvimento de Recursos Humanos. É fundadora da ATITTUDE e dinamizadora de várias iniciativas de referência no sector.

    Em conversa com a Revista Negócios no Chiveve, Marlene revela que foi ainda no segundo ano da licenciatura que percebeu que Relações Internacionais não era a sua verdadeira paixão. Ainda assim, concluiu o curso, consciente de que a formação académica era uma base — mas não o destino final. Foi nesse percurso que descobriu que Recursos Humanos seriam o eixo central da sua vida profissional.

    O regresso a Moçambique e o primeiro choque com a realidade

    Em 2014, regressou a Moçambique após concluir os estudos em Portugal. O entusiasmo do regresso confrontou-se rapidamente com a realidade do mercado de trabalho: mais de quatro meses de desemprego, enviando currículos e aguardando respostas.

    “Fiquei quatro meses sentada no sofá a enviar e-mails à procura de emprego. Muita gente acredita que estudar fora garante colocação imediata quando regressa, mas a verdade é que é preciso persistência.”

    A primeira oportunidade surgiu sob a forma de estágio, numa empresa de consultoria, onde permaneceu seis meses. Longe de ser um simples ponto de passagem, essa experiência revelou-se determinante.

    Aprender fazendo: a escola da prática

    Marlene descreve essa primeira empresa como uma verdadeira escola prática. Por se tratar de uma estrutura pequena, teve contacto com várias áreas para além dos Recursos Humanos, incluindo a área comercial. Essa vivência transversal deu-lhe uma compreensão ampla do funcionamento das organizações — e plantou a semente do empreendedorismo.

    “Tive uma líder que percebeu que eu tinha asas e nunca mais cortou. Aprendi muito e percebi que a minha ambição de fazer mais e de impactar pessoas e o país não me permitiria ficar limitada.”

    Foi assim que, em 2015, nasceu a ATITTUDE — nome que, como a própria explica, reflecte a sua postura perante a vida e os negócios. Uma empresa que hoje orgulhosamente actua a nível nacional e começa a consolidar presença internacional.

    ATITTUDE e o Fórum RH: quando o mercado ganha uma referência

    Nos últimos anos, a ATITTUDE registou um crescimento consistente. Através desta empresa, Marlene criou um dos eventos mais relevantes do sector em Moçambique: o Fórum RH. Concebido, organizado e gerido por uma equipa jovem e altamente comprometida, o Fórum rapidamente ultrapassou fronteiras.

    “Hoje o Fórum RH acontece, para além de Moçambique, em Angola, Cabo Verde e Portugal. Somos uma referência.”

    Para além do evento, a ATITTUDE posiciona-se em recrutamento, consultoria de RH e apoio ao set-up de multinacionais, actuando em diferentes sectores de actividade. Ainda assim, Marlene sublinha que a visão está longe de estar concluída: o foco é aprender continuamente com o mercado e encontrar soluções diferenciadoras.

    Com a expansão internacional do Fórum RH, tornou-se necessária uma estrutura autónoma, dedicada exclusivamente ao seu desenvolvimento, comunicação, imagem, parcerias e adaptação estratégica aos diferentes países.

    “Temos um projecto de expansão muito estruturado. Vale a pena ficarem atentos, porque vêm muitas novidades.”

    A partir de 2021, a ATITTUDE passou a posicionar-se de forma ainda mais focada no desenvolvimento dos Recursos Humanos em Moçambique e em África, com o Fórum RH como eixo central.

    Outras iniciativas e o espírito empreendedor

    Mas a vida profissional de Marlene de Sousa não se esgota na ATITTUDE e no Fórum RH. A empreendedora está igualmente envolvida em outras iniciativas estratégicas, como a Cimeira Lusófona de Liderança e o Mozambique Marketing Summit.

    A Cimeira Lusófona de Liderança, criada em parceria com Anabela Chastre, visa reunir líderes dos países lusófonos para debater diferentes abordagens de liderança. Já o Mozambique Marketing Summit nasce da mesma lógica de criação de redes, partilha de conhecimento e fortalecimento de competências.

    “Gosto muito de networking. No sector em que actuo, é fundamental. O meu espírito empreendedor leva-me naturalmente a envolver-me em várias iniciativas.”

    Desafios de crescimento e liderança

    Reconhecida nacionalmente como uma referência em Recursos Humanos, Marlene aponta como principal desafio actual manter a equipa alinhada com a visão da empresa, assegurando que a qualidade e o compromisso se mantêm à medida que a estrutura cresce.

    “Há uma fase em que precisamos de olhar para o nosso negócio como se estivéssemos de fora. Isso ajuda-nos a reduzir erros e a criar estrutura para o próximo nível.”

    “Mundo RH em Moçambique”: quando as histórias inspiram

    Recentemente, lançou o livro “Mundo RH em Moçambique”. Mais do que um exercício literário, o livro surge como uma ferramenta de posicionamento e criação de referências no sector.

    “As pessoas mudam através de histórias. E o país tem poucas referências visíveis em Recursos Humanos.”

    A obra resulta de entrevistas a directores de RH das maiores empresas do país, organizadas a partir de um guião comum. O conteúdo foi compilado e estruturado por Carina Fernandes, gestora de conteúdos, e posteriormente editado em Portugal pela Editora RH. O título foi sugerido por Pedro Ramos, Director de RH do Grupo TAP Portugal.

    Concluído em apenas seis meses, o livro baseia-se em testemunhos reais, sem pretensão académica, orientado sobretudo para futuros profissionais de RH.

    “Vai inspirar e mostrar como se chega a Director de RH das maiores empresas do país.”

    Estão previstos uma segunda edição e um novo projecto editorial com abordagem mais internacional.

    Mulher, liderança e responsabilidade social

    Ao reflectir sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea, Marlene é clara: é fundamental que as mulheres acreditem mais em si próprias, arrisquem e deixem de procurar validação externa.

    “Precisamos de mais mulheres focadas no que as faz felizes, e não no que a sociedade espera delas.”

    Defende que cada mulher deve reconhecer as suas fragilidades e transformá-las em força, vivendo de forma autêntica a vida pessoal e profissional.

    “Só temos uma vida. Não faz sentido não sermos aquilo que sonhamos ser.”

    Marlene conclui deixando um apelo mais amplo: que cada moçambicano, na sua área de actuação, faça mais, procure soluções e contribua activamente para o desenvolvimento do país.

  • Delfina de Nogueira: Visão e Liderança no Sector da Educação na Cidade da Beira

    Delfina de Nogueira: Visão e Liderança no Sector da Educação na Cidade da Beira

    No contexto das transformações sociais e económicas que marcam o país, a educação assume-se como um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento sustentável. É neste cenário que se destaca o percurso de Delfina Nogueira, empreendedora e fundadora da Escola Primária Palmo e Meio, uma iniciativa que alia qualidade pedagógica, formação humana e compromisso com o futuro das crianças da Cidade da Beira.

    Natural da Beira, Delfina Nogueira é filha de uma mãe sofalense e de um pai zambeziano. É licenciada em Ensino de História pela Universidade Pedagógica e exerce actualmente as funções de Directora da Escola Primária Palmo e Meio. A sua ligação ao sector da educação iniciou-se há cerca de cinco anos, no ensino pré-escolar, tendo em 2018 expandido o projecto para o ensino primário, abrangendo da 1.ª à 5.ª classe.

    A opção pela educação resulta, em primeiro lugar, da sua identidade profissional enquanto professora e da afinidade natural com o trabalho com crianças. Ao longo da sua trajectória profissional, acumulou experiências em áreas como administração, logística e finanças, tendo igualmente gerido um centro de formação profissional com doze departamentos de ensino, que iam desde a construção civil e mecânica até à educação de infância e culinária. Este percurso diversificado dotou-a de competências técnicas e de gestão que lhe permitiram criar a sua própria iniciativa empresarial, alinhando vocação, experiência e visão estratégica.

    Apesar da formação em História, Delfina considera que esta área teve um papel determinante na forma como encara o empreendedorismo. A História, afirma, amplia horizontes, desenvolve pensamento crítico e permite compreender o mundo para além da experiência imediata. Essa capacidade de leitura contextual contribuiu para encarar a criação da escola com optimismo, responsabilidade e sentido de missão.

    O quotidiano enquanto empreendedora é marcado por desafios constantes, comuns a qualquer gestor. No entanto, Delfina adopta como princípio orientador a persistência e a resiliência. Defende uma liderança participativa, baseada na partilha de responsabilidades, desafios e conquistas com a equipa. Não se vê como chefe, mas como líder, acreditando que a gestão se torna mais eficaz quando todos se sentem parte integrante do projecto.

    Esta abordagem reflecte-se na relação próxima com os colaboradores, assente em confiança, respeito e sentido de pertença. Para Delfina, a gestão eficaz não depende de fórmulas complexas, mas sim de trabalho consistente, responsabilidade, honestidade, simplicidade e humildade — valores que considera essenciais para a sustentabilidade de qualquer organização.

    No plano familiar e social, mantém a mesma simplicidade que sempre a caracterizou. O que mudou, reconhece, foram as responsabilidades acrescidas. O facto de ter familiares igualmente envolvidos em actividades empreendedoras facilita o diálogo, a partilha de experiências e a reflexão conjunta sobre inovação, gestão e crescimento.

    Gerir uma escola primária implica uma responsabilidade particular, por se tratar da formação das gerações futuras. Delfina admite que não é um desafio simples, mas sublinha a importância de uma equipa qualificada e do gosto genuíno pelo trabalho com crianças, factores que tornam o processo mais equilibrado e gratificante.

    Relativamente ao posicionamento da Escola Primária Palmo e Meio, Delfina não se coloca numa lógica de comparação, mas assume um compromisso claro com a qualidade do serviço educativo e com a formação integral da criança. Para si, a educação deve ir além do domínio técnico e académico, incorporando valores humanos universais como respeito, honestidade, tolerância e responsabilidade. Num contexto em que a sociedade tende a privilegiar competências técnicas em detrimento da ética, a escola procura formar crianças preparadas não apenas para o sucesso académico, mas para a vida em sociedade.

    Quanto ao papel da mulher no mundo dos negócios, Delfina manifesta uma visão positiva e confiante. Observa um número crescente de mulheres empreendedoras na Beira e em todo o país e rejeita a ideia de limitações baseadas no género. Defende que a presença feminina na gestão acrescenta valor às organizações, pela visão global, sensibilidade social e capacidade multifacetada que muitas mulheres desenvolvem ao longo da vida.

    Para Delfina Nogueira, a chave do sucesso assenta em três pilares fundamentais: trabalho, responsabilidade e humildade. Olhando para o futuro, define como meta que, num horizonte de cinco anos, a Escola Primária Palmo e Meio seja reconhecida a nível provincial como uma referência em educação de qualidade, contribuindo para o resgate de valores humanos e para o desenvolvimento cognitivo e social das crianças que por ela passam.

    Às mulheres que desejam iniciar-se no mundo dos negócios, deixo uma mensagem clara: não desistam dos seus sonhos. Segundo Delfina, não é necessário dispor de grandes recursos financeiros para começar; é possível iniciar com pouco, desde que existam foco, persistência e determinação. Num país com amplo espaço para empreender, acredita que a força e a resiliência da mulher moçambicana continuam a ser motores essenciais de transformação.

    Assim se apresenta o percurso de Delfina Nogueira, uma mulher que demonstra que empreender não é uma questão de dimensão, mas de propósito, impacto e legado.