Yara Cuembelo e a YAH: Criatividade, Sabores e Empreendedorismo com Identidade

Num mercado cada vez mais competitivo, onde muitas ideias parecem repetir-se, a diferença está, muitas vezes, na forma como se observa uma oportunidade, se constrói uma marca e se transforma um produto simples numa experiência memorável. Foi a partir dessa sensibilidade que nasceu a YAH, uma marca beirense que vem ganhando espaço ao unir sumos naturais, cocktails, criatividade e uma identidade visual forte.

À frente do projecto está Yara Cuembelo, que encontrou no empreendedorismo uma forma de aplicar a sua experiência profissional, explorar a criatividade e responder a uma necessidade concreta do mercado. O que começou com a venda de sumos naturais evoluiu para uma marca associada a frescura, eventos, inovação e momentos especiais.

Nesta entrevista, Yara partilha o percurso que deu origem à YAH, os desafios de empreender sendo mulher num sector exigente, a importância da consistência física e digital, e a visão que tem para o futuro de uma marca que nasceu para marcar momentos.

Yara Cuembelo, residente na cidade da Beira, não chegou ao empreendedorismo por um caminho inicialmente planeado. Aos 28 anos, formada em Gestão de Marketing e Relações Públicas pela Universidade Católica de Moçambique, construiu a sua base profissional no universo da comunicação, da marca e do relacionamento com o público.

Antes mesmo de concluir a licenciatura, em 2019, já actuava como técnica de marketing numa empresa do sector da restauração, experiência que lhe permitiu aplicar, na prática, os princípios fundamentais da área em que se formou. Ao longo de seis anos no mercado de trabalho, Yara manteve-se ligada ao marketing, desenvolvendo competências em posicionamento, comunicação, atendimento, experiência do cliente e construção de valor.

Apesar desse percurso, nunca imaginou que um dia se tornaria empreendedora, muito menos num sector ligado à mixologia e aos sumos naturais. No entanto, em 2024, essa trajectória ganhou um novo rumo com o nascimento da YAH, uma marca que viria a juntar criatividade, experiência, identidade visual e uma nova forma de olhar para bebidas em eventos.

“Eu nunca imaginei que um dia seria empreendedora, e muito menos na área de mixologia e sumos naturais, até que em 2024 nasceu a YAH”, recorda.

A ideia de negócio nasceu de uma observação simples, mas reveladora: a capacidade de escutar o mercado onde outros apenas passam. Num dia comum, ao sair do ginásio, Yara ouviu algumas pessoas comentarem que não havia uma opção fresca e natural para beber antes ou depois dos treinos. Para ela, aquele comentário mostrou que boas oportunidades de negócio podem nascer de necessidades quotidianas, desde que o empreendedor esteja atento ao mercado.

“Foi aí que percebi que é importante estarmos sensíveis e atentos para identificar oportunidades de negócio que resolvam a dor do cliente”, afirma.

Foi assim que decidiu dar o primeiro passo, comprando uma máquina de sumo de cana e iniciando aquilo que viria a tornar-se a YAH.

O nome YAH nasce da própria identidade de Yara, mas com uma intenção clara de marca. Embora tenha origem no seu nome, a empreendedora não queria criar uma designação demasiado óbvia, como “sumos da Yara”. Procurava algo curto, memorável e capaz de ficar facilmente na mente das pessoas.

A escolha ganhou ainda mais força por se tratar de uma expressão familiar no quotidiano moçambicano. “Yah” é uma palavra presente na linguagem informal, usada naturalmente em conversas diárias, o que torna a marca próxima, simples e fácil de recordar.

“O nome YAH vem do meu próprio nome, Yara, mas eu queria algo que ficasse facilmente na mente das pessoas. A palavra ‘Yah’ já faz parte do vocabulário dos moçambicanos. Penso que ninguém em Moçambique passa um dia sem dizer ‘Yah’”, explica.

Com este nome, Yara pretende transmitir autenticidade, criatividade e uma presença feminina forte no mercado de sumos naturais e cocktails.

O início da YAH, porém, foi marcado por limitações financeiras e muita persistência. Na altura, Yara tinha apenas dinheiro suficiente para comprar uma máquina em segunda mão. Para completar a estrutura inicial do negócio, vendeu arranjos de plantas naturais e, pouco a pouco, conseguiu adquirir a mesa, os acessórios, os copos, as palhinhas, os colantes personalizados e os elementos visuais que dariam identidade à marca.

Foram cerca de cinco meses a juntar recursos e organizar cada detalhe antes de colocar o negócio em funcionamento. No princípio, as vendas eram reduzidas, mas a persistência foi essencial. Depois do primeiro mês, a marca começou a ganhar visibilidade, despertando curiosidade e atraindo novos clientes.

Contudo, o maior desafio da YAH não esteve apenas nas limitações financeiras, no produto ou na aceitação do mercado, mas na construção de uma equipa capaz de acompanhar a visão da marca. Para Yara, a mão-de-obra tem sido, desde o início, um dos principais obstáculos ao crescimento do negócio.

A dificuldade em encontrar colaboradores comprometidos, responsáveis e alinhados com o padrão de qualidade da marca limita a expansão. Como fundadora, Yara sente a necessidade de estar presente em vários momentos da operação, tanto para garantir a qualidade do serviço como porque os clientes se sentem mais seguros quando a vêem directamente envolvida na experiência.

“O maior desafio desde o início até hoje é a mão-de-obra. É muito difícil encontrar trabalhadores comprometidos a nível local. Isso dificulta a expansão do negócio, porque, como fundadora, tenho de estar sempre presente. Não é fácil delegar funções quando a mão-de-obra ainda deixa muito a desejar”, explica.

Para ultrapassar esse desafio, Yara tem apostado na selecção, contratação e formação de colaboradores, procurando estruturar uma equipa capaz de acompanhar o crescimento da YAH sem comprometer a qualidade, a identidade e a experiência que a marca entrega aos clientes.

Inicialmente, a YAH nasceu com foco nos sumos naturais, mas rapidamente evoluiu para uma proposta mais ampla, integrando cocktails e serviços para eventos. Esta transição resultou da criatividade de Yara e da vontade de explorar a cana-de-açúcar como matéria-prima diferenciadora, transformando um produto simples em bebidas com identidade própria.

Numa primeira fase, surgiram as “canarinhas” de maracujá e limão, bem como a “cana colada”, todas preparadas com base na cana-de-açúcar. Com o tempo, a exigência dos clientes levou Yara a aprofundar conhecimentos e a introduzir outros cocktails, mas a canarinha de maracujá continua a ser um dos produtos mais procurados da marca.

“Temos vindo a adaptar-nos dia após dia. A princípio, a YAH foi concebida apenas para sumos naturais, mas depois tive a ideia de usar a cana-de-açúcar como matéria-prima para fazer cocktails aos finais de semana”, explica.

Hoje, essa capacidade de adaptação permite à YAH atender públicos diferentes: clientes que procuram sumos naturais para eventos e outros que desejam cocktails personalizados para tornar as celebrações mais marcantes.

Num mercado onde já existem vários pontos de venda de sumos, Yara acredita que o verdadeiro diferencial da YAH está na autenticidade da marca e na forma como transforma uma matéria-prima comum numa experiência diferenciada. Desde o início, ouviu comentários de quem dizia que “sumo de cana toda a gente faz” e que esse tipo de negócio dificilmente teria retorno. Em vez de encarar essa percepção como limitação, usou-a como motivação para inovar.

“Sempre digo que o maior diferencial do nosso negócio somos nós mesmos. A autenticidade da YAH é o que a destaca de outras marcas. Eu criei a YAH para ser uma revolução na área dos sumos de cana, para mostrar que é possível usar essa matéria-prima valiosa para criar sabores e experiências únicas para o público”, afirma.

Foi nesse processo que a marca desenvolveu combinações próprias, como sumo de cana com coco, malambe, tamarindo e frutos vermelhos, sabores que se tornaram parte da identidade da YAH e continuam a ter grande aceitação junto dos clientes.

Por outro lado, a introdução do sumo de cana como base para cocktails surgiu de uma inspiração simples e criativa. Ao observar a composição de bebidas populares, como a caipirinha, tradicionalmente feita com cachaça, limão e açúcar, Yara percebeu que poderia substituir o açúcar pelo sumo natural da cana, criando uma bebida mais fresca, com identidade própria e ligação directa à marca.

“A ideia surgiu no intuito de aproveitar a matéria-prima que já usávamos nos sumos. Afinal, a caipirinha é feita de cachaça, limão e açúcar. Foi só uma questão de substituir o açúcar pelo sumo de cana”, explica.

A partir dessa capacidade de transformar a cana-de-açúcar em diferentes experiências, a YAH procura equilibrar inovação, autenticidade e qualidade em cada detalhe. Para Yara, não basta criar novos sabores; é preciso cuidar da apresentação, do atendimento, da frescura dos ingredientes e da forma como cada bebida se integra ao momento do cliente.

“Equilibramos inovação, autenticidade e qualidade unindo presença digital estratégica, experiência personalizada e cuidado com o produto entregue”, afirma.

Essa combinação entre criatividade, comunicação e atenção ao detalhe tem sido uma das bases da diferenciação da YAH no mercado. A receptividade do público beirense tem sido um dos sinais mais encorajadores desse posicionamento. A aceitação superou as expectativas iniciais e reforçou a confiança de Yara na proposta da marca.

“A resposta do público tem sido positiva, melhor do que esperávamos. Claro que não temos como agradar a todos, mas Deus tem-nos abençoado com clientes muito bons, que apostam e apoiam os nossos produtos e serviços”, afirma.

Para a empreendedora, esse apoio tem sido fundamental para fortalecer a marca e continuar a aperfeiçoar os produtos, o atendimento e a experiência entregue em cada evento.

A aceitação do público foi acompanhada por momentos que marcaram a consolidação da YAH e reforçaram a confiança de Yara no caminho escolhido. Um dos mais simbólicos foi o primeiro dia de vendas, em 2024, na légua da Cornelder, oportunidade aberta com o apoio de Chabelli Gonçalves.

“Foi muito estratégico inaugurar a YAH naquele evento. Conseguimos fazer uma boa publicidade logo de primeira, muitos participantes aderiram aos sumos e deram feedbacks positivos. E tivemos a honra de receber o Governador da cidade da Beira no nosso stand, foi mesmo uma bênção”, recorda.

Depois vieram outros marcos importantes: a presença na muralha, um espaço estratégico e difícil de conquistar, e o primeiro casamento em que a YAH prestou serviços de cocktails, experiência que abriu portas no mercado de eventos. Para Yara, esses momentos confirmaram que a marca não estava apenas a vender bebidas, mas a construir presença, reputação e ligação com o público.

A construção dessa presença, reputação e ligação com o público não acontece por acaso. Para Yara, empreender no sector criativo e de eventos, sobretudo num mercado desafiante como o da Beira, exige mais do que uma boa ideia: exige estudo, observação e capacidade de diferenciação.

“É preciso fazer pesquisa de mercado, perceber como a concorrência trabalha e como podemos destacar-nos. Também é importante desenvolver habilidades de marketing e design gráfico, pesquisar tendências e aprender sobre o comportamento de compra do consumidor”, explica.

Na sua visão, ferramentas digitais como aplicações de design, YouTube e TikTok podem ser grandes aliadas para aprender, testar ideias, acompanhar tendências e manter a marca actualizada.

Essa capacidade de estudar o mercado e diferenciar-se torna-se ainda mais importante num percurso que, para Yara, também é atravessado pelos desafios de ser mulher empreendedora em Moçambique. No sector da coquetelaria, tradicionalmente mais associado à presença masculina, a fundadora da YAH sente que, por vezes, precisa provar competência antes mesmo de apresentar o seu trabalho.

“É mesmo desafiador empreender em Moçambique, mas ser mulher empreendedora é ainda mais desafiante. A área de coquetelaria tem sido mais dominada por homens, então ser mulher nesta área gera dúvidas”, afirma.

Ainda assim, Yara mantém uma postura firme e profissional. Quando está sozinha, procura não dar espaço a abordagens que desviem o foco do trabalho; e, quando trabalha ao lado do marido, essa presença acaba por criar uma barreira natural. Para ela, liderar a YAH exige criatividade, mas também segurança, firmeza e compromisso com a visão da marca.

Para sustentar essa firmeza no mercado, Yara destaca a consistência e a disciplina como pilares do crescimento da YAH. Em apenas dois anos, a marca conquistou visibilidade e reconhecimento porque manteve presença regular, tanto no espaço físico como no digital.

“Nem todos os dias acordamos motivados para trabalhar, mas devemos fazer a nossa parte todos os dias. A consistência e a disciplina levam-nos a lugares onde a motivação, sozinha, nunca nos levaria”, afirma.

Na prática, essa consistência significa abrir a banca com regularidade, cumprir horários, manter a qualidade dos produtos e comunicar de forma activa nas redes sociais. Para Yara, a disciplina da YAH não está apenas na produção dos sumos ou cocktails, mas também na capacidade de permanecer visível, criar ligação com o público e ocupar espaço na memória dos clientes.

Para Yara, a visibilidade também é parte essencial desse processo de crescimento. Plataformas como a Revista Negócios no Chiveve ajudam a dar espaço a empreendedores, marcas locais e histórias que precisam de ser conhecidas, valorizadas e apoiadas pelo mercado.

É nesta lógica que deixa uma mensagem às jovens mulheres que desejam transformar talentos e paixões em negócios sustentáveis: acreditar no próprio sonho, mesmo quando o apoio externo ainda não aparece. Para a empreendedora, muitas pessoas só começam a apoiar quando os resultados se tornam visíveis; por isso, é fundamental ter clareza, fé e compromisso com aquilo que se pretende construir.

“Nada é tão nosso quanto os nossos sonhos, e só nós podemos realizá-los. É importante perceber que nem todos à nossa volta vão partilhar da mesma visão. Muitas vezes, as pessoas começam a apoiar depois de tudo começar a dar certo”, afirma.

Para Yara, entregar os planos nas mãos de Deus não significa esperar passivamente, mas agir com disciplina, coragem e persistência.

“Entregue tudo nas mãos de Deus, e faça a sua parte”, aconselha.

Para fechar, Yara olha para o futuro com discrição, mas também com ambição. Sem revelar todos os planos, afirma que visualiza a YAH num patamar muito maior, como uma marca capaz de crescer, consolidar-se e orgulhar os moçambicanos, sem perder a essência criativa que a originou.

“Visualizo a YAH grande, muito maior do que é actualmente. Mas não gosto muito de dar spoiler do futuro. Vai acontecer muita coisa boa, que será motivo de orgulho para muitos moçambicanos”, afirma.

Mais do que expandir produtos ou serviços, Yara quer fortalecer a YAH como uma marca de experiências, identidade e memória. Por isso, resume o propósito da marca numa frase simples: “A YAH nasceu para marcar momentos.” A trajectória de Yara Cuembelo mostra que o empreendedorismo nasce, muitas vezes, da capacidade de observar o quotidiano com atenção e transformar necessidades simples em experiências diferenciadas. Com a YAH, a empreendedora prova que criatividade, consistência e identidade podem dar novo valor a um produto comum, tornando-o memorável para o público. Entre sumos naturais, cocktails e eventos, a marca afirma-se não apenas pelo que serve, mas pela forma como marca momentos, valoriza a inovação local e inspira outros jovens a acreditarem que, mesmo num mercado desafiante, é possível construir negócios com autenticidade, visão e propósito.