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  • CHIVEVE: Quando a Saudade Vira Marca e a Identidade Vira Negócio

    CHIVEVE: Quando a Saudade Vira Marca e a Identidade Vira Negócio

    O restaurante moçambicano que está a pôr Lisboa a comer Beira — com autenticidade, disciplina e propósito

    Há ideias que nascem de um plano de negócios. E há ideias que nascem de uma ausência. O Chiveve Restaurante, em Lisboa, nasceu exactamente aí: da saudade, da vontade de afirmar Moçambique fora de Moçambique e de uma leitura clara do mercado — havia curiosidade crescente pela nossa gastronomia, mas faltava representação autêntica e consistente da cozinha moçambicana na capital portuguesa. Para Edner e Sheila Abreu, casal beirense e fundadores do projecto, o que começou como desejo de matar saudades transformou-se, com disciplina e foco, numa marca que hoje cria pontes entre culturas, à volta da mesa.

    O nome escolhido revela logo a intenção: “Chiveve” não é apenas uma palavra. É um símbolo. Remete ao Rio Chiveve, na cidade da Beira — imagem de origem, memória e pertença. Tal como o rio liga margens e dá vida, o restaurante pretende unir pessoas, experiências e histórias, fazendo da gastronomia um idioma universal. A mensagem é simples e profunda: onde quer que estejamos, levamos Moçambique connosco — nos sabores, nos aromas, no ritmo da sala, na forma de receber, e naquele gesto tipicamente moçambicano de transformar um cliente em amigo.

    Esta visão tem raízes pessoais. Edner e Sheila não “descobriram” a cozinha moçambicana em Lisboa; cresceram dentro dela. Para eles, comida nunca foi apenas alimentação — foi família, celebração e identidade. E essa memória afectiva tornou-se matéria-prima empresarial. Antes de Portugal, já tinham vivido experiências na restauração na Beira; e, antes de Lisboa, testaram projectos menores, desde o fornecimento de refeições por encomenda até buffets e participação em eventos gastronómicos. Foram etapas de aprendizagem intensiva: erraram, ajustaram, recomeçaram. Essa “escola prática” deixou uma lição que hoje orienta o Chiveve: paixão sem organização não sustenta negócio.

    Quando decidiram abrir portas em Lisboa, o maior desafio foi imediato e estrutural: conquistar credibilidade num mercado altamente competitivo. Portugal tem regras, fiscalidade, licenciamento, procedimentos de higiene e segurança alimentar que exigem rigor diário — e não há romantismo que substitua a gestão. Além disso, havia um segundo obstáculo: educar o público. Muitos clientes nunca tinham provado sabores como matapa, caril de camarão com quiabos, ou a densidade aromática de uma zambeziana bem feita. O desafio, portanto, não era apenas cozinhar: era apresentar uma cultura com clareza, sem diluir a sua essência.

    É aqui que o conceito do Chiveve ganha força. O restaurante define-se como uma celebração autêntica da cozinha moçambicana, onde tradição e identidade se encontram com criatividade e sofisticação. A proposta não é “adaptar Moçambique” ao gosto de fora; é traduzir Moçambique de forma acessível, sem perder raízes. Por isso, o equilíbrio entre autenticidade e adaptação é tratado com cuidado: receitas originais, temperos e ingredientes tradicionais, acompanhados por pequenas afinações na apresentação, na intensidade de alguns sabores e na forma de contar a história por trás de cada prato. O objectivo é que o estrangeiro compreenda e aprecie — mas que o moçambicano reconheça imediatamente: “isto é nosso.”

    No menu, alguns pratos tornaram-se emblemas da casa. O Frango à Zambeziana é apontado como uma assinatura — e não apenas pela fama interna: são os próprios clientes que o consagram, com avaliações e comentários que elevam o prato a fenómeno de reputação. Ao lado dele, surgem a Matapa (com camarão ou caranguejo), e o caril de camarão com quiabos, expressões directas da identidade culinária moçambicana. Nas sobremesas, o Chiveve mantém o mesmo princípio: tradição com carácter — arroz doce de coco, mousse de malambe — sabores que não competem com a moda; competem com a memória.

    Mas a experiência do Chiveve não termina no prato. Aqui, a cultura está presente como um sistema completo: decoração, música, atendimento e narrativa. A equipa não serve apenas refeições; serve contexto, hospitalidade e orgulho. E este ponto é decisivo: num restaurante identitário, o produto é inseparável da forma como é entregue. Por isso, os fundadores insistem que a equipa é parte central do sucesso — cada membro carrega a responsabilidade de manter a autenticidade na cozinha e a excelência no serviço, garantindo que cada visita seja, de facto, uma imersão na cultura moçambicana.

    Como se constrói, então, um negócio sustentável sem sacrificar qualidade? A resposta dos fundadores é pragmática: qualidade exige escolha; sustentabilidade exige controlo. O Chiveve mantém ingredientes frescos e autenticidade na preparação, mas sustenta-se através de gestão rigorosa de custos, planeamento de compras e controlo de desperdícios. “Tudo tende a ser aproveitado”, dizem, porque num restaurante sério a margem nasce tanto da receita quanto do método. É a síntese perfeita do projecto: paixão e disciplina — juntas, não alternadas.

    E se há um canal de crescimento que se destaca, é o da reputação pública. Num mercado em que confiança vale ouro, o Chiveve encontrou no digital uma alavanca poderosa: reviews no Google, partilhas nas redes sociais e o velho boca-a-boca. As avaliações positivas funcionam como prova social, criam credibilidade e reduzem a barreira de entrada para novos clientes. Mais do que publicidade, é testemunho. E esse testemunho confirma algo surpreendente: apesar de ser um projecto moçambicano, o restaurante não vive apenas da comunidade moçambicana — pelo contrário, os próprios fundadores reconhecem que os “nossos irmãos moçambicanos” representam uma parcela pequena do público diário. O Chiveve tornou-se, assim, um ponto de encontro cultural para todos, onde Moçambique é apresentado com qualidade e consistência a um público amplo.

    A fidelização é construída por uma lógica simples e exigente: relação e repetição. No Chiveve, o lema não é apenas “servir bem”; é criar laços. Os fundadores dizem que paixão e amor no que fazem é o segredo — e isto, em linguagem económica, significa algo muito concreto: experiência memorável gera retorno, transforma a primeira visita numa segunda e a segunda num hábito. Numa cidade como Lisboa, onde o consumidor tem múltiplas opções, fidelizar não é um detalhe — é sobrevivência estratégica.

    Ao longo da jornada, a mentalidade foi determinante. Abrir um restaurante fora do país de origem é um acto de coragem, mas também de responsabilidade: exige enfrentar burocracia, regras fiscais, procedimentos de licenciamento, fornecedores, equipas e expectativas. O momento mais difícil, segundo os fundadores, foi o início — transformar o sonho no papel em realidade operacional. Superaram esse período mantendo o foco na visão e ajustando processos sem comprometer a autenticidade. A união do casal, neste ponto, funcionou como base de governação: quando o mercado exige rapidez e consistência, a coesão interna é uma vantagem competitiva.

    Hoje, ao olhar para o futuro, o Chiveve não corre atrás de expansão por impulso. A visão para os próximos cinco anos é clara: consolidar-se como referência em Lisboa para quem procura gastronomia moçambicana autêntica. Não há planos imediatos para abrir novas unidades — e essa escolha revela maturidade empresarial. Num sector onde a pressa em crescer pode destruir qualidade, a estratégia é aprofundar a experiência, fortalecer a equipa e proteger o que torna a marca especial: autenticidade, consistência e detalhe.

    O que o empresariado moçambicano pode aprender com esta história? Primeiro, que nada é impossível quando a paixão se alia ao planeamento. Segundo, que a autenticidade não é romantismo — é vantagem competitiva. Num mundo saturado de cópias, o produto genuíno cria ligação emocional e diferenciação real. Terceiro, que pequenos negócios podem competir globalmente se forem fiéis à sua identidade, oferecerem qualidade consistente e tratarem o cliente com profissionalismo. Ser verdadeiro no que se faz pode ser, afinal, a maior vantagem competitiva de um negócio moçambicano.

    No final, o Chiveve é mais do que um restaurante. É uma afirmação: África não é apenas consumo; é produção, inovação, resiliência e excelência. Cada prato servido em Lisboa é, também, uma resposta silenciosa a um velho complexo: o de achar que a nossa cultura precisa de permissão para ocupar lugares de destaque. O Chiveve prova o contrário — com trabalho, método e orgulho.

    Portanto, empreender com propósito é levar a nossa verdade para o mundo, sem pedir desculpa por ela. Como dizem Edner e Sheila, com o coração moçambicano e o rigor de quem aprendeu no terreno: “Mwatu Munu, não trememos. Kanimambo.”

  • A jornada de Dionísio Marendiuraye — Do “Milho Torrado” à Construção de um Sistema de Desenvolvimento Comunitário

    A jornada de Dionísio Marendiuraye — Do “Milho Torrado” à Construção de um Sistema de Desenvolvimento Comunitário

    Num país onde o empreendedorismo muitas vezes nasce da necessidade, a história de Dionísio Marendiuraye revela algo mais profundo: um modelo de negócio construído não apenas para gerar rendimento, mas para quebrar ciclos de pobreza, restaurar dignidade e transformar comunidades rurais. Filho de Machipanda, nascido em 1992, Dionísio descreve-se não apenas como empresário, mas como um “transformador de realidades”, alguém cuja vida foi marcada por adversidades extremas e cuja resposta foi sempre a mesma: reconstruir-se através do conhecimento, da fé e do trabalho.

    A sua infância foi marcada por pobreza severa, episódios de humilhação social, bullying e uma falsa acusação criminal quando ainda tinha apenas dez anos. Esse episódio, que levou a comunidade a virar-se contra ele, tornou-se paradoxalmente um ponto de viragem. Foi a mãe quem o protegeu e reafirmou a sua inocência, e foi o pai — mutilado pela guerra, mas empreendedor resiliente — quem lhe transmitiu o primeiro ensinamento empresarial: vender ovos cozidos para garantir sustento. Esse gesto simples transformou-se na primeira escola de negócios, mostrando-lhe desde cedo que o comércio pode ser uma ferramenta de dignidade.

    Ao longo da adolescência, Dionísio fez de tudo para sobreviver: carregou cargas pesadas na fronteira de Machipanda (Moçambique-Zimbabwe), vendeu pequenos produtos, e encontrou refúgio nos estudos e na leitura da Bíblia. Esse período consolidou a sua convicção de que a educação e o propósito seriam as únicas respostas duradouras para o sofrimento vivido. Mais tarde, já formado e a trabalhar como extensionista agrário, começou a perceber que a sua missão não se limitava à assistência técnica. O contacto diário com agricultores revelou-lhe um padrão estrutural: o problema das comunidades rurais não era apenas a falta de produção, mas sobretudo a falta de conhecimento aplicado, acesso a insumos de qualidade e integração económica.

    O momento decisivo surgiu em 2020, durante a pandemia. As restrições de mobilidade levaram muitos produtores a pedir-lhe que comprasse insumos nas cidades e os entregasse directamente nos campos. Esse serviço informal revelou-lhe uma oportunidade clara: formalizar o conhecimento técnico e transformá-lo numa estrutura empresarial que resolvesse simultaneamente os problemas dos agricultores e a sua própria vulnerabilidade financeira. Assim nasceu a Agro-Dio Mozambique, posteriormente renomeada Agro-Dio Machava, numa decisão estratégica que reflectiu a identidade construída localmente. Os clientes já não viam a empresa como uma marca distante, mas como o negócio do “Machava” que conheciam pessoalmente — alguém que cresceu na mesma comunidade e partilhava os mesmos desafios.

    Hoje, a Agro-Dio Machava comercializa sementes certificadas, fertilizantes, ferramentas agrícolas, produtos veterinários e nutrição animal, mas o seu verdadeiro diferencial permanece o mesmo desde o início: a assistência técnica gratuita. Para Dionísio, vender insumos sem ensinar a utilizá-los correctamente significa perpetuar a pobreza. Por isso, mantém sessões regulares de aconselhamento técnico, garantindo que cada agricultor não apenas compra, mas aprende. O impacto já é visível em diversas comunidades, onde produtores passaram a alcançar excedentes agrícolas, aumentar rendimento e iniciar pequenas actividades pecuárias com maior segurança.

    Essa leitura sistémica do desenvolvimento rural levou-o a identificar um segundo problema estrutural: mesmo quando os agricultores conseguem produzir e gerar lucro, muitas vezes não conseguem transformar esse rendimento em melhoria habitacional devido à especulação no mercado de materiais de construção. Foi esta constatação que motivou a criação da Marendiuraye Comercial, Lda., empresa cujo nome homenageia o pai e o legado empresarial familiar interrompido pela guerra. A loja, construída simbolicamente sobre uma antiga lixeira onde Dionísio recolhia bidões em criança, tornou-se um marco local e um símbolo de mobilidade social possível.

    A Marendiuraye Comercial posiciona-se como um elo complementar da Agro-Dio: enquanto a primeira aumenta a produtividade agrícola, a segunda permite converter esse rendimento em habitação digna através de materiais de construção a preços justos. Para o empresário, trata-se de fechar o ciclo económico do produtor rural — produzir, vender, investir e melhorar a qualidade de vida. Este modelo integrado transforma duas empresas distintas num sistema único de desenvolvimento comunitário.

    A sua experiência como extensionista continua a influenciar profundamente a forma como identifica oportunidades. Trabalhar directamente no terreno ensinou-lhe que a inovação no sector agrário não depende apenas de tecnologia sofisticada, mas sobretudo de assistência contínua, acesso a informação fiável, sistemas de irrigação, insumos certificados e integração de mercados. Entre os principais desafios dos pequenos produtores moçambicanos, destacam-se a vulnerabilidade climática, a dependência de produção de sequeiro, a escassez de assistência técnica permanente, a especulação nos preços e a dificuldade de acesso a canais de comercialização estáveis.

    Para enfrentar esses desafios, Dionísio defende soluções baseadas em três pilares: infra-estrutura hídrica e irrigação, formação técnica contínua e digitalização da partilha de conhecimento. O uso de plataformas online, grupos de debate e redes sociais tem sido parte da sua estratégia pessoal para democratizar informação agrícola, permitindo que produtores obtenham respostas rápidas mesmo em zonas remotas.

    Do ponto de vista da gestão, afirma não ver as suas empresas como projectos independentes, mas como extensões de uma única missão. O modelo baseia-se em propósito claro, equipa de confiança e disciplina operacional. Reconhece, contudo, que enfrenta desafios significativos, sobretudo na gestão de tempo, acesso a crédito, logística de stocks e recrutamento de colaboradores alinhados com a mesma ética de trabalho.

    Apesar disso, acredita que a confiança do mercado constrói-se através de três factores simples: verdade, tempo e resultados. A honestidade na recomendação de produtos, a presença contínua na comunidade e a evidência prática de aumento de produtividade dos clientes consolidaram a reputação das empresas. Para ele, a consultoria gratuita não é um custo, mas um investimento estratégico que transforma clientes em parceiros de longo prazo.

    O seu olhar sobre o futuro do empreendedorismo jovem em Moçambique é igualmente pragmático. Considera que as maiores oportunidades não estão necessariamente em projectos tecnológicos sofisticados, mas na resolução directa de problemas locais: cadeias de valor agrícola, transformação digital aplicada ao campo, construção acessível, serviços de proximidade e comércio regional. Mais do que capital inicial, acredita que os factores decisivos são persistência, aprendizagem contínua, capacidade de escuta e integridade.

    Nos próximos cinco anos, pretende posicionar a Agro-Dio Machava e a Marendiuraye Comercial como um sistema consolidado de desenvolvimento comunitário, expandindo assistência técnica, formando novos técnicos locais e reforçando parcerias estratégicas com programas agrícolas, fornecedores certificados e instituições de apoio. O objectivo final não é apenas crescer empresarialmente, mas consolidar o nome Marendiuraye como sinónimo de confiança, justiça e transformação social.

    A mensagem que deixa aos jovens é directa: as oportunidades raramente estão no sonho distante, mas quase sempre no problema mais próximo. Para ele, o empreendedor começa quando alguém decide resolver uma necessidade concreta da sua própria comunidade.

    Se tivesse de resumir a sua própria história numa frase, Dionísio escolheria uma imagem poderosa: quer ser lembrado como o menino que recolhia bidões no lixo e que construiu o primeiro prédio sobre essa mesma lixeira — prova viva de que as origens não determinam o destino, mas o propósito pode redefini-lo completamente.

  • Érica Rosalina: Engenharia, Visão e Empreendedorismo com Impacto

    Érica Rosalina: Engenharia, Visão e Empreendedorismo com Impacto

    Num contexto em que o empreendedorismo exige cada vez mais inovação, consistência e capacidade de adaptação, surgem perfis que combinam conhecimento técnico com visão estratégica para criar negócios com propósito. É neste enquadramento que se destaca Érica Rosalina, engenheira de processos industriais e empreendedora que tem vindo a afirmar o seu percurso através da criação de iniciativas orientadas para impacto, qualidade e valorização pessoal.

    A sua trajectória no empreendedorismo não nasceu de uma oportunidade isolada, mas de uma inquietação interna — o desejo de fazer mais, de criar algo próprio e de gerar impacto real na vida das pessoas. Apesar de possuir uma base sólida na área industrial, Érica sentia que podia ir além do percurso convencional, construindo projectos que respondessem a necessidades concretas do mercado, especialmente ligadas ao bem-estar, à autoestima e à valorização individual, como a marca do chá Kika, a sua nova aposta no mercado.

    A sua formação académica e experiência profissional desempenharam um papel determinante na forma como estruturou os seus negócios. A engenharia de processos e o controlo de qualidade incutiram-lhe uma mentalidade orientada para a eficiência, organização e melhoria contínua. Estes princípios foram incorporados nos seus projectos, garantindo consistência, credibilidade e foco na excelência — elementos essenciais para a construção de marcas sustentáveis.

    Os seus empreendimentos surgem, assim, da capacidade de observar o mercado e identificar lacunas. Mais do que comercializar produtos, Érica procurou criar soluções que transmitissem uma mensagem mais profunda: a importância do cuidado pessoal, da autoestima e da confiança. Esta abordagem diferenciadora permitiu-lhe posicionar-se não apenas como empresária, mas como promotora de transformação individual e social.

    Contudo, o caminho não esteve isento de desafios. Tal como muitos empreendedores em contextos emergentes, enfrentou limitações de recursos, dificuldades na construção de credibilidade e a necessidade constante de aprendizagem. A transição entre o conhecimento técnico e as exigências do mercado — incluindo gestão, estratégia e relacionamento com clientes — exigiu disciplina, resiliência e capacidade de adaptação

    Para Érica, ser uma mulher líder no contexto empresarial moçambicano vai além da gestão de um negócio. Significa representar possibilidades, abrir caminhos e desafiar padrões estabelecidos. A liderança feminina, na sua visão, carrega também uma dimensão de responsabilidade: inspirar outras mulheres a acreditarem no seu potencial e a construírem os seus próprios percursos. Entre as características essenciais para uma liderança transformadora, destacam-se a autoconfiança, a empatia, a resiliência e a visão estratégica, aliadas à capacidade de ouvir, aprender e evoluir continuamente .

    O impacto do seu trabalho estende-se para além do negócio. Ao partilhar a sua experiência — incluindo desafios e conquistas — Érica tem contribuído para inspirar jovens e mulheres a entrarem no mundo do empreendedorismo. Acredita que o exemplo é uma das formas mais poderosas de influência e que o empreendedorismo desempenha um papel central no desenvolvimento económico e social, através da criação de empregos, da promoção da inovação e da geração de soluções locais para desafios locais.

    Ao longo da sua jornada, uma das lições mais marcantes foi compreender que a consistência supera a perfeição. Para Érica, o crescimento não depende de começar com condições ideais, mas sim da disciplina e do compromisso em melhorar continuamente. Os momentos de incerteza, especialmente no início, foram determinantes para fortalecer a sua resiliência e reafirmar o seu propósito enquanto empreendedora.

    O futuro aponta para a expansão e consolidação dos seus projectos, com foco no fortalecimento da marca, no estabelecimento de parcerias estratégicas e no investimento na produção local. Paralelamente, mantém o compromisso de desenvolver iniciativas que continuem a gerar impacto positivo na comunidade, reforçando o papel do empreendedorismo como instrumento de transformação social.

    A sua mensagem para outras mulheres é clara: começar com o que se tem. Num ambiente onde as condições ideais raramente existem, a acção torna-se o primeiro passo essencial. Investir no conhecimento, manter consistência e acreditar no próprio valor são, para Érica Rosalina, os pilares fundamentais para construir um negócio e uma trajectória de sucesso.

    Mais do que uma engenheira ou empresária, Érica representa uma nova geração de mulheres moçambicanas que unem conhecimento, propósito e acção para construir soluções, criar oportunidades e transformar realidades.

  • Sónia das Sonyas: Empreendedorismo com Coragem e Propósito

    Sónia das Sonyas: Empreendedorismo com Coragem e Propósito

    No universo do empreendedorismo moçambicano, existem histórias que não começam com oportunidade — começam com necessidade. A trajetória de Sónia das Sonyas é um exemplo marcante de como a resiliência, a criatividade e a determinação podem transformar circunstâncias difíceis em caminhos de sucesso.

    Desde muito cedo, o empreendedorismo não foi uma escolha, mas uma questão de sobrevivência. Ainda criança, com apenas oito anos, Sónia já acompanhava a sua mãe no mercado, ajudando na venda de bananas e outros produtos. Entre a escola e o mercado, começou a desenvolver o seu espírito comercial, vendendo também os seus próprios produtos. Foi assim que, ainda jovem, conseguiu conquistar pequenas vitórias, como comprar a sua primeira roupa com o seu próprio esforço .

    Ao longo dos anos, foi experimentando diferentes actividades — desde a venda de bolinhos e doces, até à produção artesanal de acessórios. Contudo, um dos momentos mais difíceis da sua vida marcou também uma viragem decisiva: a perda da mãe. Forçada a abandonar os estudos, teve de recomeçar do zero, viajando para o Zimbabwe para adquirir produtos e revendê-los na Beira, enfrentando desafios como longas jornadas, clientes inadimplentes e a necessidade de encontrar um negócio sustentável.

    A sua caminhada foi marcada por reinvenção constante. Vendeu frutas, legumes, carvão, roupas e produtos personalizados. Enfrentou momentos de falência e dificuldades pessoais, incluindo a maternidade em condições adversas. Ainda assim, nunca deixou de procurar novas formas de recomeçar.

    Um dos pontos de viragem surgiu de um gesto simples: ao receber dinheiro para o almoço, decidiu investir em peças de roupa para revenda. A estratégia revelou-se lucrativa e, com disciplina e consistência, conseguiu acumular capital suficiente para investir no seu primeiro fardo de roupas e num manequim. Assim nasceu a Ebenezer Creative, um projecto que viria a transformar a sua vida.

    Com uma visão inovadora, Sónia identificou uma oportunidade clara: muitas mulheres não tinham tempo ou disposição para ir ao mercado. Criou então um modelo de negócio baseado em conveniência e valor acrescentado — venda ao domicílio, roupas lavadas, passadas e prontas a usar. Para além disso, introduziu estratégias como consultoria de moda, personalização de peças e criação de grupos VIP de clientes, estimulando a fidelização e o crescimento contínuo do negócio .

    Hoje, Sónia é uma das maiores fornecedoras de roupas usadas no país, com distribuição para todas as províncias de Moçambique e presença em mercados internacionais como Zimbabwe, Zâmbia, Malawi, Tanzânia e, ocasionalmente, África do Sul. Lidera uma rede de revendedores — na sua maioria mulheres — com destaque para um grupo com cerca de 700 integrantes, que encontram nela uma fonte de inspiração e oportunidade económica.

    Para além do impacto económico, o seu trabalho tem uma forte dimensão social. Sónia emprega colaboradores, oferece mentoria a jovens empreendedores e participa em acções sociais, consolidando o seu papel como agente de transformação na comunidade. O empreendedorismo permitiu-lhe alcançar conquistas significativas, como construir a sua casa, adquirir bens, proporcionar educação de qualidade aos filhos e expandir horizontes pessoais e profissionais.

    Contudo, o caminho não esteve isento de desafios. Entre as dificuldades destacam-se o assédio no ambiente de negócios, a desvalorização da mulher em certos sectores e as burlas financeiras. Ainda assim, Sónia mantém uma visão firme: o sucesso exige foco, coragem, perseverança e, acima de tudo, a capacidade de nunca desistir .

    A sua maior lição foi aprender a escolher as pessoas certas para fazer negócios, após experiências negativas que lhe custaram perdas significativas. Apesar dos momentos de desânimo, nunca considerou desistir. A sua motivação vem do inconformismo — a crença de que é sempre possível fazer melhor —, da fé e do desejo de proporcionar um futuro melhor para os seus filhos .

    O futuro, para Sónia, passa pela expansão do negócio para lojas físicas em todo o país, pela internacionalização com novos fornecedores e pela concretização de um sonho social: criar uma escola de artes com base em materiais recicláveis, voltada para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade .

    A sua mensagem para outras mulheres é clara e directa: é preciso dar o primeiro passo. Num mundo onde as oportunidades nem sempre são dadas, criar o próprio caminho torna-se essencial. Com o apoio das ferramentas digitais e das redes sociais, Sónia acredita que nunca houve um momento tão propício para transformar ideias em realidade.

    A história de Sónia das Sonyas não é apenas sobre negócios. É sobre superação, visão e impacto. É a prova de que, mesmo nos contextos mais desafiadores, o empreendedorismo pode ser um instrumento poderoso de transformação pessoal e colectiva.

  • Sheila Simango: Visão e Coragem para Construir Negócios com Impacto

    Sheila Simango: Visão e Coragem para Construir Negócios com Impacto

    O empreendedorismo feminino em Moçambique tem vindo a afirmar-se como uma força crescente no desenvolvimento económico local, impulsionado por mulheres que transformam ambição em acção e desafios em oportunidades. Entre estas histórias de construção e impacto destaca-se Sheila Simango, uma empreendedora cuja trajectória combina visão, resiliência e compromisso com a criação de valor para a sua comunidade.

    A sua jornada no mundo dos negócios iniciou-se há cerca de nove anos, de forma simples, mas estratégica: vendendo roupas para colegas na universidade. O que começou como uma actividade informal rapidamente evoluiu para um projecto estruturado, com a criação do seu primeiro espaço, inicialmente focado em salão e boutique, e posteriormente expandido para a área de estética. Desde o início, Sheila demonstrou uma motivação clara: não apenas gerar rendimento, mas construir algo próprio com impacto real na vida das pessoas, particularmente das mulheres.

    A decisão de empreender foi também impulsionada por um momento de viragem pessoal. Ao perceber que o trabalho tradicional limitava a sua capacidade de crescimento, optou por seguir um caminho independente, assumindo os riscos e responsabilidades inerentes ao empreendedorismo. Essa escolha resultou na criação da marca Fancy Store, em 2018, consolidando a sua presença no sector da beleza e bem-estar.

    A sua visão estratégica permitiu-lhe identificar uma oportunidade clara no mercado: a crescente procura por serviços de estética de qualidade, combinados com atendimento personalizado. Mais do que oferecer produtos ou serviços isolados, Sheila apostou na criação de uma experiência integrada, reunindo salão, boutique e spa num único conceito. Esta abordagem diferenciadora contribuiu para o posicionamento da sua marca e para a construção de uma base sólida de clientes.

    Como em muitos percursos empreendedores, os desafios foram uma constante. A limitação de recursos financeiros, a necessidade de construir credibilidade e a falta de experiência inicial em gestão representaram obstáculos significativos. Um dos aspectos mais críticos foi a dificuldade em separar as finanças pessoais das finanças do negócio, situação comum entre empreendedores em fases iniciais. Paralelamente, conciliar a vida pessoal — especialmente enquanto mãe — com as exigências do negócio exigiu equilíbrio, disciplina e resiliência.

    Apesar destes desafios, o impacto do seu trabalho tornou-se evidente. Através dos seus negócios, Sheila tem contribuído para a criação de empregos e para a capacitação de jovens, com especial enfoque em mulheres. Para além disso, a sua própria trajectória serve como exemplo de que é possível começar com recursos limitados e construir algo significativo através da consistência e dedicação. Esta capacidade de inspirar outras pessoas reforça o seu papel como agente de transformação no contexto local.

    A sua liderança estende-se também ao campo institucional. Enquanto Delegada Provincial da ANJE em Manica, Sheila tem desempenhado um papel activo na promoção do empreendedorismo jovem, facilitando o acesso a redes, oportunidades e conhecimento. Para si, liderar significa mais do que crescer individualmente: é criar impacto colectivo, abrir caminhos e contribuir para o desenvolvimento de outros empreendedores.

    Na sua perspectiva, as mulheres desempenham um papel fundamental no desenvolvimento económico local. São agentes resilientes, criativos e frequentemente responsáveis pelo sustento das suas famílias. Quando uma mulher alcança autonomia económica, o impacto estende-se à família e à comunidade, reforçando a importância do empreendedorismo feminino como motor de transformação social.

    Ao longo da sua trajectória, uma das principais lições foi compreender que o crescimento exige tempo, consistência e respeito pelo processo. Nem sempre os resultados surgem de forma imediata, mas a persistência e a dedicação acabam por gerar frutos. Momentos difíceis, como os desafios iniciais e o impacto da pandemia da COVID-19 — que chegou a forçar o encerramento temporário do negócio — foram superados através da reinvenção e da força do propósito.

    O futuro de Sheila Simango passa pela expansão e consolidação dos seus negócios, com foco no fortalecimento da marca Fancy Store e na continuidade do seu trabalho de apoio a jovens empreendedores. A sua visão mantém-se alinhada com o desenvolvimento de soluções que combinem crescimento económico com impacto social.

    A sua mensagem para outras mulheres é clara e pragmática: começar com o que se tem. Num contexto onde as condições ideais raramente existem, a acção torna-se o elemento decisivo. Acreditar em si mesma, manter consistência e não temer o erro são, para Sheila, os pilares fundamentais para construir uma trajectória de sucesso.

    A história de Sheila Simango demonstra que o empreendedorismo não é apenas sobre negócios — é sobre liderança, propósito e transformação. É a prova de que, com visão e coragem, é possível construir não apenas empresas, mas também caminhos para outras mulheres seguirem.

  • Yara Cuembelo e a YAH: Criatividade, Sabores e Empreendedorismo com Identidade

    Yara Cuembelo e a YAH: Criatividade, Sabores e Empreendedorismo com Identidade

    Num mercado cada vez mais competitivo, onde muitas ideias parecem repetir-se, a diferença está, muitas vezes, na forma como se observa uma oportunidade, se constrói uma marca e se transforma um produto simples numa experiência memorável. Foi a partir dessa sensibilidade que nasceu a YAH, uma marca beirense que vem ganhando espaço ao unir sumos naturais, cocktails, criatividade e uma identidade visual forte.

    À frente do projecto está Yara Cuembelo, que encontrou no empreendedorismo uma forma de aplicar a sua experiência profissional, explorar a criatividade e responder a uma necessidade concreta do mercado. O que começou com a venda de sumos naturais evoluiu para uma marca associada a frescura, eventos, inovação e momentos especiais.

    Nesta entrevista, Yara partilha o percurso que deu origem à YAH, os desafios de empreender sendo mulher num sector exigente, a importância da consistência física e digital, e a visão que tem para o futuro de uma marca que nasceu para marcar momentos.

    Yara Cuembelo, residente na cidade da Beira, não chegou ao empreendedorismo por um caminho inicialmente planeado. Aos 28 anos, formada em Gestão de Marketing e Relações Públicas pela Universidade Católica de Moçambique, construiu a sua base profissional no universo da comunicação, da marca e do relacionamento com o público.

    Antes mesmo de concluir a licenciatura, em 2019, já actuava como técnica de marketing numa empresa do sector da restauração, experiência que lhe permitiu aplicar, na prática, os princípios fundamentais da área em que se formou. Ao longo de seis anos no mercado de trabalho, Yara manteve-se ligada ao marketing, desenvolvendo competências em posicionamento, comunicação, atendimento, experiência do cliente e construção de valor.

    Apesar desse percurso, nunca imaginou que um dia se tornaria empreendedora, muito menos num sector ligado à mixologia e aos sumos naturais. No entanto, em 2024, essa trajectória ganhou um novo rumo com o nascimento da YAH, uma marca que viria a juntar criatividade, experiência, identidade visual e uma nova forma de olhar para bebidas em eventos.

    “Eu nunca imaginei que um dia seria empreendedora, e muito menos na área de mixologia e sumos naturais, até que em 2024 nasceu a YAH”, recorda.

    A ideia de negócio nasceu de uma observação simples, mas reveladora: a capacidade de escutar o mercado onde outros apenas passam. Num dia comum, ao sair do ginásio, Yara ouviu algumas pessoas comentarem que não havia uma opção fresca e natural para beber antes ou depois dos treinos. Para ela, aquele comentário mostrou que boas oportunidades de negócio podem nascer de necessidades quotidianas, desde que o empreendedor esteja atento ao mercado.

    “Foi aí que percebi que é importante estarmos sensíveis e atentos para identificar oportunidades de negócio que resolvam a dor do cliente”, afirma.

    Foi assim que decidiu dar o primeiro passo, comprando uma máquina de sumo de cana e iniciando aquilo que viria a tornar-se a YAH.

    O nome YAH nasce da própria identidade de Yara, mas com uma intenção clara de marca. Embora tenha origem no seu nome, a empreendedora não queria criar uma designação demasiado óbvia, como “sumos da Yara”. Procurava algo curto, memorável e capaz de ficar facilmente na mente das pessoas.

    A escolha ganhou ainda mais força por se tratar de uma expressão familiar no quotidiano moçambicano. “Yah” é uma palavra presente na linguagem informal, usada naturalmente em conversas diárias, o que torna a marca próxima, simples e fácil de recordar.

    “O nome YAH vem do meu próprio nome, Yara, mas eu queria algo que ficasse facilmente na mente das pessoas. A palavra ‘Yah’ já faz parte do vocabulário dos moçambicanos. Penso que ninguém em Moçambique passa um dia sem dizer ‘Yah’”, explica.

    Com este nome, Yara pretende transmitir autenticidade, criatividade e uma presença feminina forte no mercado de sumos naturais e cocktails.

    O início da YAH, porém, foi marcado por limitações financeiras e muita persistência. Na altura, Yara tinha apenas dinheiro suficiente para comprar uma máquina em segunda mão. Para completar a estrutura inicial do negócio, vendeu arranjos de plantas naturais e, pouco a pouco, conseguiu adquirir a mesa, os acessórios, os copos, as palhinhas, os colantes personalizados e os elementos visuais que dariam identidade à marca.

    Foram cerca de cinco meses a juntar recursos e organizar cada detalhe antes de colocar o negócio em funcionamento. No princípio, as vendas eram reduzidas, mas a persistência foi essencial. Depois do primeiro mês, a marca começou a ganhar visibilidade, despertando curiosidade e atraindo novos clientes.

    Contudo, o maior desafio da YAH não esteve apenas nas limitações financeiras, no produto ou na aceitação do mercado, mas na construção de uma equipa capaz de acompanhar a visão da marca. Para Yara, a mão-de-obra tem sido, desde o início, um dos principais obstáculos ao crescimento do negócio.

    A dificuldade em encontrar colaboradores comprometidos, responsáveis e alinhados com o padrão de qualidade da marca limita a expansão. Como fundadora, Yara sente a necessidade de estar presente em vários momentos da operação, tanto para garantir a qualidade do serviço como porque os clientes se sentem mais seguros quando a vêem directamente envolvida na experiência.

    “O maior desafio desde o início até hoje é a mão-de-obra. É muito difícil encontrar trabalhadores comprometidos a nível local. Isso dificulta a expansão do negócio, porque, como fundadora, tenho de estar sempre presente. Não é fácil delegar funções quando a mão-de-obra ainda deixa muito a desejar”, explica.

    Para ultrapassar esse desafio, Yara tem apostado na selecção, contratação e formação de colaboradores, procurando estruturar uma equipa capaz de acompanhar o crescimento da YAH sem comprometer a qualidade, a identidade e a experiência que a marca entrega aos clientes.

    Inicialmente, a YAH nasceu com foco nos sumos naturais, mas rapidamente evoluiu para uma proposta mais ampla, integrando cocktails e serviços para eventos. Esta transição resultou da criatividade de Yara e da vontade de explorar a cana-de-açúcar como matéria-prima diferenciadora, transformando um produto simples em bebidas com identidade própria.

    Numa primeira fase, surgiram as “canarinhas” de maracujá e limão, bem como a “cana colada”, todas preparadas com base na cana-de-açúcar. Com o tempo, a exigência dos clientes levou Yara a aprofundar conhecimentos e a introduzir outros cocktails, mas a canarinha de maracujá continua a ser um dos produtos mais procurados da marca.

    “Temos vindo a adaptar-nos dia após dia. A princípio, a YAH foi concebida apenas para sumos naturais, mas depois tive a ideia de usar a cana-de-açúcar como matéria-prima para fazer cocktails aos finais de semana”, explica.

    Hoje, essa capacidade de adaptação permite à YAH atender públicos diferentes: clientes que procuram sumos naturais para eventos e outros que desejam cocktails personalizados para tornar as celebrações mais marcantes.

    Num mercado onde já existem vários pontos de venda de sumos, Yara acredita que o verdadeiro diferencial da YAH está na autenticidade da marca e na forma como transforma uma matéria-prima comum numa experiência diferenciada. Desde o início, ouviu comentários de quem dizia que “sumo de cana toda a gente faz” e que esse tipo de negócio dificilmente teria retorno. Em vez de encarar essa percepção como limitação, usou-a como motivação para inovar.

    “Sempre digo que o maior diferencial do nosso negócio somos nós mesmos. A autenticidade da YAH é o que a destaca de outras marcas. Eu criei a YAH para ser uma revolução na área dos sumos de cana, para mostrar que é possível usar essa matéria-prima valiosa para criar sabores e experiências únicas para o público”, afirma.

    Foi nesse processo que a marca desenvolveu combinações próprias, como sumo de cana com coco, malambe, tamarindo e frutos vermelhos, sabores que se tornaram parte da identidade da YAH e continuam a ter grande aceitação junto dos clientes.

    Por outro lado, a introdução do sumo de cana como base para cocktails surgiu de uma inspiração simples e criativa. Ao observar a composição de bebidas populares, como a caipirinha, tradicionalmente feita com cachaça, limão e açúcar, Yara percebeu que poderia substituir o açúcar pelo sumo natural da cana, criando uma bebida mais fresca, com identidade própria e ligação directa à marca.

    “A ideia surgiu no intuito de aproveitar a matéria-prima que já usávamos nos sumos. Afinal, a caipirinha é feita de cachaça, limão e açúcar. Foi só uma questão de substituir o açúcar pelo sumo de cana”, explica.

    A partir dessa capacidade de transformar a cana-de-açúcar em diferentes experiências, a YAH procura equilibrar inovação, autenticidade e qualidade em cada detalhe. Para Yara, não basta criar novos sabores; é preciso cuidar da apresentação, do atendimento, da frescura dos ingredientes e da forma como cada bebida se integra ao momento do cliente.

    “Equilibramos inovação, autenticidade e qualidade unindo presença digital estratégica, experiência personalizada e cuidado com o produto entregue”, afirma.

    Essa combinação entre criatividade, comunicação e atenção ao detalhe tem sido uma das bases da diferenciação da YAH no mercado. A receptividade do público beirense tem sido um dos sinais mais encorajadores desse posicionamento. A aceitação superou as expectativas iniciais e reforçou a confiança de Yara na proposta da marca.

    “A resposta do público tem sido positiva, melhor do que esperávamos. Claro que não temos como agradar a todos, mas Deus tem-nos abençoado com clientes muito bons, que apostam e apoiam os nossos produtos e serviços”, afirma.

    Para a empreendedora, esse apoio tem sido fundamental para fortalecer a marca e continuar a aperfeiçoar os produtos, o atendimento e a experiência entregue em cada evento.

    A aceitação do público foi acompanhada por momentos que marcaram a consolidação da YAH e reforçaram a confiança de Yara no caminho escolhido. Um dos mais simbólicos foi o primeiro dia de vendas, em 2024, na légua da Cornelder, oportunidade aberta com o apoio de Chabelli Gonçalves.

    “Foi muito estratégico inaugurar a YAH naquele evento. Conseguimos fazer uma boa publicidade logo de primeira, muitos participantes aderiram aos sumos e deram feedbacks positivos. E tivemos a honra de receber o Governador da cidade da Beira no nosso stand, foi mesmo uma bênção”, recorda.

    Depois vieram outros marcos importantes: a presença na muralha, um espaço estratégico e difícil de conquistar, e o primeiro casamento em que a YAH prestou serviços de cocktails, experiência que abriu portas no mercado de eventos. Para Yara, esses momentos confirmaram que a marca não estava apenas a vender bebidas, mas a construir presença, reputação e ligação com o público.

    A construção dessa presença, reputação e ligação com o público não acontece por acaso. Para Yara, empreender no sector criativo e de eventos, sobretudo num mercado desafiante como o da Beira, exige mais do que uma boa ideia: exige estudo, observação e capacidade de diferenciação.

    “É preciso fazer pesquisa de mercado, perceber como a concorrência trabalha e como podemos destacar-nos. Também é importante desenvolver habilidades de marketing e design gráfico, pesquisar tendências e aprender sobre o comportamento de compra do consumidor”, explica.

    Na sua visão, ferramentas digitais como aplicações de design, YouTube e TikTok podem ser grandes aliadas para aprender, testar ideias, acompanhar tendências e manter a marca actualizada.

    Essa capacidade de estudar o mercado e diferenciar-se torna-se ainda mais importante num percurso que, para Yara, também é atravessado pelos desafios de ser mulher empreendedora em Moçambique. No sector da coquetelaria, tradicionalmente mais associado à presença masculina, a fundadora da YAH sente que, por vezes, precisa provar competência antes mesmo de apresentar o seu trabalho.

    “É mesmo desafiador empreender em Moçambique, mas ser mulher empreendedora é ainda mais desafiante. A área de coquetelaria tem sido mais dominada por homens, então ser mulher nesta área gera dúvidas”, afirma.

    Ainda assim, Yara mantém uma postura firme e profissional. Quando está sozinha, procura não dar espaço a abordagens que desviem o foco do trabalho; e, quando trabalha ao lado do marido, essa presença acaba por criar uma barreira natural. Para ela, liderar a YAH exige criatividade, mas também segurança, firmeza e compromisso com a visão da marca.

    Para sustentar essa firmeza no mercado, Yara destaca a consistência e a disciplina como pilares do crescimento da YAH. Em apenas dois anos, a marca conquistou visibilidade e reconhecimento porque manteve presença regular, tanto no espaço físico como no digital.

    “Nem todos os dias acordamos motivados para trabalhar, mas devemos fazer a nossa parte todos os dias. A consistência e a disciplina levam-nos a lugares onde a motivação, sozinha, nunca nos levaria”, afirma.

    Na prática, essa consistência significa abrir a banca com regularidade, cumprir horários, manter a qualidade dos produtos e comunicar de forma activa nas redes sociais. Para Yara, a disciplina da YAH não está apenas na produção dos sumos ou cocktails, mas também na capacidade de permanecer visível, criar ligação com o público e ocupar espaço na memória dos clientes.

    Para Yara, a visibilidade também é parte essencial desse processo de crescimento. Plataformas como a Revista Negócios no Chiveve ajudam a dar espaço a empreendedores, marcas locais e histórias que precisam de ser conhecidas, valorizadas e apoiadas pelo mercado.

    É nesta lógica que deixa uma mensagem às jovens mulheres que desejam transformar talentos e paixões em negócios sustentáveis: acreditar no próprio sonho, mesmo quando o apoio externo ainda não aparece. Para a empreendedora, muitas pessoas só começam a apoiar quando os resultados se tornam visíveis; por isso, é fundamental ter clareza, fé e compromisso com aquilo que se pretende construir.

    “Nada é tão nosso quanto os nossos sonhos, e só nós podemos realizá-los. É importante perceber que nem todos à nossa volta vão partilhar da mesma visão. Muitas vezes, as pessoas começam a apoiar depois de tudo começar a dar certo”, afirma.

    Para Yara, entregar os planos nas mãos de Deus não significa esperar passivamente, mas agir com disciplina, coragem e persistência.

    “Entregue tudo nas mãos de Deus, e faça a sua parte”, aconselha.

    Para fechar, Yara olha para o futuro com discrição, mas também com ambição. Sem revelar todos os planos, afirma que visualiza a YAH num patamar muito maior, como uma marca capaz de crescer, consolidar-se e orgulhar os moçambicanos, sem perder a essência criativa que a originou.

    “Visualizo a YAH grande, muito maior do que é actualmente. Mas não gosto muito de dar spoiler do futuro. Vai acontecer muita coisa boa, que será motivo de orgulho para muitos moçambicanos”, afirma.

    Mais do que expandir produtos ou serviços, Yara quer fortalecer a YAH como uma marca de experiências, identidade e memória. Por isso, resume o propósito da marca numa frase simples: “A YAH nasceu para marcar momentos.” A trajectória de Yara Cuembelo mostra que o empreendedorismo nasce, muitas vezes, da capacidade de observar o quotidiano com atenção e transformar necessidades simples em experiências diferenciadas. Com a YAH, a empreendedora prova que criatividade, consistência e identidade podem dar novo valor a um produto comum, tornando-o memorável para o público. Entre sumos naturais, cocktails e eventos, a marca afirma-se não apenas pelo que serve, mas pela forma como marca momentos, valoriza a inovação local e inspira outros jovens a acreditarem que, mesmo num mercado desafiante, é possível construir negócios com autenticidade, visão e propósito.

  • Crise de Combustível: O Impacto Silencioso nos Pequenos Negócios em Moçambique

    Crise de Combustível: O Impacto Silencioso nos Pequenos Negócios em Moçambique

    A crise de combustível em Moçambique deixou de ser apenas um problema sentido nas filas dos postos de abastecimento. Em 2026, tornou-se um dos factores de maior pressão sobre o custo de vida, a mobilidade urbana, a logística empresarial e a sobrevivência dos pequenos negócios. O impacto é silencioso porque nem sempre aparece directamente nas estatísticas das empresas, mas está presente no preço do transporte, no custo das entregas, no valor dos produtos alimentares, na redução das margens de lucro e na dificuldade diária de manter actividades económicas em funcionamento.

    A dimensão do problema tornou-se mais visível com a actualização dos preços dos combustíveis em Maio de 2026. Segundo a Autoridade Reguladora de Energia (ARENE), os novos preços entraram em vigor a 7 de Maio de 2026, passando a gasolina de 83,57 MT/litro para 93,69 MT/litro, enquanto o gasóleo subiu de 79,88 MT/litro para 116,25 MT/litro. O petróleo de iluminação passou de 66,86 MT/litro para 97,56 MT/litro, o gás de cozinha de 86,05 MT/kg para 87,82 MT/kg e o gás natural veicular de 41,11 MT/litro equivalente para 52,73 MT/litro equivalente.

    Em termos práticos, isto representa um aumento de cerca de 12,1% na gasolina e de aproximadamente 45,5% no gasóleo. O agravamento do gasóleo é particularmente sensível para a economia, porque este combustível é central para o transporte de mercadorias, camiões, logística, maquinaria, abastecimento de mercados e várias actividades produtivas. Quando o gasóleo sobe quase metade do seu valor anterior, o efeito tende a espalhar-se por toda a cadeia económica: do fornecedor ao transportador, do grossista ao retalhista, e do pequeno comerciante ao consumidor final.

    A subida foi ainda mais sentida porque, pouco antes, os preços tinham sido mantidos inalterados. Em Abril de 2026, a ARENE anunciou que, nas cidades de Maputo, Beira, Nacala e Pemba, a gasolina continuava a ser vendida a 83,57 MT/litro, o gasóleo a 79,88 MT/litro e o gás de cozinha a 86,05 MT/kg. Ou seja, em poucas semanas, os agentes económicos passaram de um cenário de estabilidade aparente para um reajuste expressivo, sobretudo no gasóleo.

    Na cidade da Beira, o impacto ganhou uma expressão própria. Em Abril de 2026, o Porto da Beira recebeu dois navios-tanque num intervalo de 48 horas, sinal da pressão sobre a procura e da importância estratégica da cidade para o abastecimento. Segundo o Diário Económico, um dos navios trouxe 20 milhões de litros de gasóleo, depois do navio MT DEE 4 LARCH ter descarregado 18 milhões de litros de gasolina. Apesar da chegada das embarcações, a escassez nos postos continuava a gerar incerteza entre o público e os sectores produtivos.

    Este dado mostra que a crise não se resume ao preço. Há também um problema de disponibilidade, distribuição e previsibilidade. Para os pequenos negócios, esta incerteza é tão grave quanto o aumento do preço. Um empreendedor pode tentar ajustar os seus custos a um novo preço, mas dificilmente consegue planear quando não sabe se haverá combustível disponível, quanto tempo terá de perder numa fila ou se o fornecedor conseguirá entregar a mercadoria no prazo.

    A Beira tem uma posição estratégica porque está ligada ao Porto da Beira e ao Corredor da Beira, um dos principais corredores logísticos do país e da região. Qualquer perturbação no abastecimento de combustível afecta não apenas automobilistas, mas também transporte de carga, circulação de camiões, serviços portuários, comércio grossista, distribuição urbana e ligação com distritos e países do hinterland. A importância da logística beirense é tal que o Governo lançou obras para aliviar a pressão sobre a Estrada Nacional Número Seis (N6), onde circulam cerca de 3.000 camiões por dia, dos quais cerca de 1.000 têm como destino o Porto da Beira, embora apenas cerca de 200 consigam entrar diariamente nas instalações portuárias.

    Num contexto destes, a crise de combustível afecta os negócios por várias vias. A primeira é o custo directo do transporte. Pequenos comerciantes que compram mercadoria em grosso passam a pagar mais pelo transporte. Vendedores de produtos alimentares, restaurantes, fornecedores de eventos, negócios de bebidas, salões, oficinas, lojas de conveniência e pequenos distribuidores sentem o aumento nos preços cobrados por transportadores, mototáxis, táxis, carrinhas e camiões. Mesmo quando o negócio não possui viatura própria, o combustível entra no custo final da mercadoria.

    A segunda via é a redução da mobilidade dos clientes e trabalhadores. Quando há menos transporte disponível, tarifas mais altas ou longas filas nas paragens, os consumidores deslocam-se menos e chegam mais tarde aos locais de compra. Na Beira, esta pressão ficou evidente no transporte semicolectivo. Nos dias que se seguiram ao aumento dos combustíveis, a cidade enfrentou fortes constrangimentos no transporte, com redução significativa de viaturas em circulação e longas filas nas paragens, afectando milhares de trabalhadores, estudantes e comerciantes. Os transportadores e passageiros chegaram a acordar uma subida informal das tarifas de “chapa” para minimizar a crise.

    Este fenómeno tem impacto directo nos pequenos negócios. Se trabalhadores chegam tarde, a produtividade cai. Se clientes se deslocam menos, as vendas reduzem. Se comerciantes têm dificuldade em transportar mercadoria, o abastecimento torna-se irregular. No caso dos negócios que dependem de fluxo diário, como bancas, lojas, restaurantes, ginásios, salões, serviços de entrega e vendedores ambulantes, a redução da mobilidade urbana afecta imediatamente a receita.

    A terceira via é o aumento dos preços finais. O combustível é um custo transversal. Está presente no transporte de hortícolas, peixe, frango, arroz, farinha, carvão, água, materiais de construção, medicamentos, bebidas e produtos de mercearia. Quando o gasóleo sobe 45,5%, os transportadores tendem a rever tarifas, os fornecedores ajustam preços e os comerciantes são pressionados a aumentar o valor ao consumidor. Mas muitos pequenos negócios não conseguem transferir todo o aumento para o cliente, porque o poder de compra é limitado. Assim, parte do choque fica dentro da empresa, reduzindo margens de lucro.

    A quarta via é a incerteza operacional. Em 2025, a Beira já tinha vivido episódios de escassez, com destaque para a gasolina. Em Abril de 2025, escassez de combustível na cidade por mais de uma semana, enchentes nos postos que ainda tinham gasolina e recurso ao mercado paralelo, onde alguns cidadãos chegavam a pagar 100 MT por litro. Este antecedente ajuda a compreender por que os empresários reagem com preocupação sempre que surgem sinais de instabilidade no abastecimento: a memória recente mostra que a escassez pode rapidamente criar mercado paralelo, perda de tempo produtivo e custos adicionais.

    Os sectores mais afectados são aqueles que dependem de circulação diária. No comércio, o impacto aparece no custo de reposição de mercadoria e na queda do movimento de clientes. Na restauração, surge no preço dos alimentos, do gás, das bebidas e das entregas. Nos eventos, afecta transporte de equipamentos, montagem, deslocação de equipas e logística de fornecedores. Na agricultura e no comércio de produtos frescos, encarece o escoamento e aumenta o risco de perdas, sobretudo quando a mercadoria é perecível. Nos serviços urbanos, como entregas, oficinas, mototáxis, táxis, lavandarias e pequenos negócios móveis, o combustível pode ser o principal custo diário de operação.

    Para negócios emergentes, o impacto pode ser ainda mais severo. Um pequeno empreendedor geralmente trabalha com pouca reserva financeira, pouca capacidade de absorver choques e elevada dependência do movimento diário de caixa. Quando o custo do transporte aumenta, o cliente exige manutenção dos preços e a procura enfraquece, o negócio fica encurralado. A crise de combustível transforma-se, assim, numa crise de margem, liquidez e sobrevivência.

    Outro efeito importante é sobre a competitividade local. Empresas maiores tendem a ter mais capacidade de negociar transporte, comprar em volume, manter stock e absorver temporariamente custos. Pequenos negócios, por sua vez, compram em menor escala, dependem de transporte informal e têm menos margem para esperar. Assim, a crise pode aumentar desigualdades entre empresas: quem tem estrutura resiste melhor; quem vive do fluxo diário sente primeiro e recupera mais tarde.

    Perante este cenário, os pequenos negócios precisam de adoptar estratégias de adaptação. A primeira é melhorar a gestão de rotas e entregas, agrupando deslocações por zonas para reduzir custos. A segunda é negociar compras conjuntas entre comerciantes, especialmente em mercados, bairros e associações empresariais. A terceira é rever stocks, evitando tanto rupturas como excesso de produtos parados. A quarta é usar canais digitais para reduzir deslocações desnecessárias, receber encomendas, confirmar disponibilidade e organizar entregas de forma mais eficiente. A quinta é rever preços com transparência, explicando ao cliente quando parte do reajuste resulta do aumento real dos custos logísticos.

    As associações empresariais também têm um papel importante. A crise mostra a necessidade de maior coordenação entre pequenos empresários, transportadores, fornecedores, municípios e instituições públicas. Num ambiente de instabilidade, a informação torna-se um activo económico. Saber onde há combustível, quais rotas estão mais funcionais, que fornecedores mantêm entregas e que alternativas logísticas existem pode fazer diferença entre abrir ou não abrir as portas num determinado dia.

    Do lado das políticas públicas, a crise reforça a necessidade de comunicação clara, previsibilidade, coordenação logística e protecção dos sectores mais sensíveis. O Governo já tinha considerado inevitável o reajuste gradual dos combustíveis devido a factores externos, incluindo o conflito no Médio Oriente, segundo declarações feitas no Parlamento pela Primeira-Ministra. No entanto, para os pequenos negócios, a questão central não é apenas saber por que os preços sobem, mas como evitar que cada reajuste se transforme numa crise de transporte, inflação local e perda de rendimento.

    A crise de combustível mostra que o custo de empreender em Moçambique não depende apenas da ideia de negócio, da coragem do empreendedor ou da qualidade do produto. Depende também de factores estruturais como energia, transporte, logística, previsibilidade e estabilidade de preços. Quando estes elementos falham, o pequeno negócio torna-se vulnerável, mesmo que tenha clientes, marca e capacidade de trabalho.

    Na Beira, esta realidade é ainda mais evidente porque a cidade vive da circulação: circulação de pessoas, mercadorias, camiões, produtos frescos, carga portuária, serviços e clientes. Quando o combustível falha ou encarece de forma abrupta, a economia local abranda. O impacto não aparece apenas nas bombas, mas nas bancas com menos produtos, nos transportadores com menos viagens, nos trabalhadores que chegam tarde, nos preços que sobem e nos empreendedores que precisam escolher entre aumentar preços, reduzir margens ou suspender serviços.

    Por isso, a crise de combustível é silenciosa, mas profunda. Ela atravessa toda a economia e atinge, com maior intensidade, quem tem menos capacidade de protecção: pequenos comerciantes, transportadores, vendedores informais, fornecedores de serviços, restaurantes, negócios de bairro e empreendedores em fase inicial. Num país onde os pequenos negócios sustentam grande parte da vida económica quotidiana, proteger a mobilidade e a previsibilidade do abastecimento é também proteger rendimento, emprego e sobrevivência empresarial.

  • Eleições na ACB: Félix Machado Reeleito por Unanimidade para Liderar um Novo Ciclo Empresarial na Cidade da Beira

    Eleições na ACB: Félix Machado Reeleito por Unanimidade para Liderar um Novo Ciclo Empresarial na Cidade da Beira

    A Associação Comercial da Beira (ACB), uma das mais antigas e representativas organizações empresariais de Moçambique, realizou, no dia 21 de Maio de 2026, a sua Assembleia Geral Ordinária, no Salão Nobre da instituição. A sessão decorreu ao abrigo do Artigo 33 dos Estatutos da ACB e teve como pontos principais da agenda a apresentação e aprovação do Relatório de Actividades e Contas de 2024/2025, bem como a eleição dos novos órgãos sociais da Associação.

    O momento assumiu particular relevância para o sector empresarial da Beira e de Sofala, não apenas pelo acto eleitoral em si, mas também pelo significado institucional de continuidade, confiança e renovação estratégica. No final da sessão, Félix Jaime Machado foi reeleito por unanimidade à Presidência da ACB, reafirmando o reconhecimento dos associados pelo trabalho desenvolvido e pela visão apresentada para o novo ciclo.

    A reeleição de Félix Machado representa, para muitos empresários, a confirmação de uma liderança que tem procurado fortalecer o papel da ACB como voz activa do sector privado, plataforma de diálogo público-privado e espaço de promoção de oportunidades para empresas de diferentes dimensões. O lema da candidatura, “Por uma ACB Forte, Representativa e Inovadora”, sintetiza a ambição de consolidar uma associação mais próxima dos seus membros, mais moderna nos seus processos e mais influente na defesa dos interesses empresariais.

    No manifesto eleitoral simplificado da Lista A, a visão apresentada aponta para uma ACB com quatro características centrais: referência nacional, digitalmente avançada, líder regional e geradora de oportunidades. Esta visão propõe uma associação empresarial mais inovadora e eficiente, capaz de utilizar a tecnologia para facilitar negócios, melhorar serviços, impulsionar a criação da Federação das Associações Económicas de Sofala (FAEPS) e multiplicar oportunidades entre os seus membros.

    Entre os pilares do programa destacam-se o apoio aos membros, a promoção do associativismo, o diálogo público-privado, o desenvolvimento de projectos, o estabelecimento de parcerias, a atracção de investimentos, a transformação digital e a inovação empresarial. A proposta inclui acções como capacitação empresarial, criação de núcleos sectoriais, realização de fóruns empresariais, fortalecimento de parcerias institucionais e financeiras, promoção de feiras, bolsas de contacto e missões empresariais dentro e fora do país.

    Um dos pontos mais marcantes do manifesto é a aposta na transformação digital e tecnológica da ACB. A proposta inclui a criação de uma plataforma digital ACB 4.0, com marketplace B2B, sistema de gestão de membros, observatório económico digital e base de dados de oportunidades. Trata-se de uma visão que procura adaptar a associação aos novos desafios do mercado, permitindo maior circulação de informação, identificação de oportunidades de negócio, acesso a concursos, programas de financiamento e comunicação mais eficiente com os associados.

    A criação da FAEPS surge também como um dos elementos estruturantes da visão apresentada. Sob a ideia de que “isoladas, somos vozes dispersas; unidas, somos uma força imparável”, a proposta defende a necessidade de fortalecer a representação empresarial provincial, ampliar o poder colectivo de negociação, promover compras conjuntas, reforçar a voz institucional de Sofala e aumentar a influência do sector privado nas políticas públicas e na atracção de investimentos.

    O compromisso assumido pela nova liderança assenta em três dimensões principais: transparência, resultados concretos e parcerias financeiras. Entre as medidas apresentadas constam relatórios periódicos, prestação de contas rigorosa, comunicação constante, metas mensuráveis, prazos definidos e entregas verificáveis. A proposta também prevê uma representação equilibrada de sectores e empresas de diferentes dimensões, com atenção especial às Pequenas e Médias Empresas, mulheres e jovens empresários.

    A equipa eleita integra diferentes sectores da economia local, sinalizando uma tentativa de representatividade empresarial mais ampla. Na presidência, Félix Jaime Machado, da Terra-mar Logística, Lda, assume a liderança, tendo como vice-presidentes Isabel Castro, da Escola Privada Longo Alcance, e José Sousa, da JD Sousa, Lda. A Assembleia Geral é presidida por Sicandar Esmail, da Mar Azul, Lda, com Miguel de Jenga, da Cornelder de Moçambique, SA, como vice-presidente, e Domingos Bonzula, da Kadoma Comercial, Lda, como secretário. O Conselho Fiscal e o Conselho Directivo integram igualmente empresários e representantes de diferentes áreas de actividade, reforçando o carácter plural da nova estrutura.

    Mais do que uma eleição interna, este processo representa um novo momento para a ACB e para o empresariado da Beira. Num contexto em que as empresas enfrentam desafios ligados ao financiamento, competitividade, digitalização, infra-estruturas, mercados e formalização, a associação é chamada a desempenhar um papel cada vez mais estratégico. A sua relevância dependerá da capacidade de transformar o manifesto em acções concretas, aproximar-se dos associados e consolidar-se como interlocutora forte perante o Estado, parceiros de cooperação, instituições financeiras e investidores.

    A unanimidade na reeleição de Félix Machado traduz não apenas confiança, mas também responsabilidade acrescida. O novo mandato será avaliado pela capacidade de materializar os compromissos assumidos, fortalecer a classe empresarial, dinamizar oportunidades e posicionar a ACB como uma instituição moderna, actuante e verdadeiramente representativa.

    Ao longo da sua história centenária, a Associação Comercial da Beira tem sido parte importante da memória económica da cidade e da região centro de Moçambique. O novo ciclo que agora se inicia coloca sobre a liderança eleita o desafio de honrar esse legado, mas também de preparar a instituição para o futuro. Uma ACB forte, representativa e inovadora será, inevitavelmente, uma ACB capaz de contribuir para uma Beira mais competitiva, uma Sofala mais dinâmica e um sector empresarial mais unido, preparado e influente.

  • Nélio Remane: Fitness, Negócios e Transformação de Vidas

    Nélio Remane: Fitness, Negócios e Transformação de Vidas

    Num tempo em que cuidar do corpo deixou de ser apenas uma questão estética e passou a integrar uma nova forma de pensar saúde, disciplina e qualidade de vida, o sector fitness começa a ganhar espaço no empreendedorismo moçambicano. Entre ginásios, acompanhamento personalizado, nutrição e construção de marcas pessoais, surge uma nova geração de profissionais que procura transformar hábitos, mentalidades e estilos de vida.

    É neste contexto que conversamos com Nélio Remane, empreendedor ligado ao universo do fitness e da nutrição, que recentemente deu um passo importante na consolidação da sua visão ao criar um espaço dedicado à transformação física e ao acompanhamento orientado para resultados. A sua trajectória cruza fé, disciplina, experiência profissional e paixão pelo desporto, elementos que hoje sustentam a forma como olha para o negócio e para o impacto que pretende gerar.

    Nesta entrevista, Nélio Remane partilha o percurso que o levou a transformar a paixão pelo fitness num projecto empresarial, os desafios de empreender numa área em crescimento e a sua visão sobre o futuro da saúde, da nutrição e do bem-estar em Moçambique.

    Residente na cidade da Beira, Nélio é um jovem cristão, empreendedor e apaixonado pela transformação humana. Mais do que trabalhar com treino físico e nutrição, vê a sua missão como um compromisso com a disciplina, a autoestima, a mentalidade e a qualidade de vida das pessoas. A sua trajectória foi construída com sacrifício, consistência e com a visão que Deus lhe tem concedido ao longo do caminho, como revelou:

    “Comecei muito cedo no mercado de trabalho e passei por diferentes áreas profissionais, onde fui adquirindo experiência em vendas, atendimento ao cliente, gestão e empreendedorismo. Cada etapa contribuiu para formar a minha visão sobre pessoas, negócios e resultados. Paralelamente, o desporto sempre esteve presente na minha vida, e o fisiculturismo ensinou-me valores que carrego até hoje: disciplina, resiliência, foco, paciência e compromisso com objectivos concretos.

    Com o tempo, compreendi que o fitness podia ir muito além da estética. Percebi que o treino e a nutrição têm o poder de restaurar a saúde, elevar a confiança e transformar a forma como uma pessoa se vê e se posiciona perante a vida. Acredito que Deus já tinha um propósito desenhado para mim e confiou-me a missão de ajudar pessoas a transformarem as suas vidas, não apenas fisicamente, mas também mental e emocionalmente.”

    Inspirado pelo desporto, por atletas de alta performance e pela cultura de superação, Nélio começou a estruturar uma marca com propósito, focada em resultados reais e numa transformação mais completa. À medida que acompanhava pessoas de forma mais próxima, percebeu que o que parecia ser apenas treino, disciplina física e orientação nutricional podia tornar-se uma ferramenta capaz de mudar histórias, restaurar autoestima e melhorar a relação das pessoas consigo mesmas.

    “Passei a ver o fitness como uma ferramenta de transformação completa. Não se trata apenas de ganhar massa muscular ou perder peso; trata-se de ajudar pessoas a recuperarem confiança, saúde, autoestima e controlo sobre a própria vida”, afirma.

    Foi nesse processo que compreendeu que não estava apenas diante de uma oportunidade de negócio, mas de uma missão. Ainda assim, no início, a decisão mais difícil foi acreditar no projecto quando poucas pessoas conseguiam enxergar a visão que carregava.

    “Todo empreendedor passa por momentos de dúvida, principalmente quando está a construir algo novo, quando os resultados ainda não são evidentes e quando muitas pessoas ao redor ainda não compreendem o caminho que está a ser seguido. Nesses momentos, é preciso ter convicção. Eu sabia que não estava apenas a criar um negócio, mas um projecto com propósito, capaz de transformar vidas através da disciplina, da saúde e da mentalidade. Aprendi que a visão vem antes do reconhecimento. Primeiro acreditamos, depois trabalhamos, e só mais tarde os resultados começam a confirmar aquilo que antes parecia apenas uma ideia.”

    Para além da paixão pelo desporto, Nélio identificou lacunas claras no mercado fitness: desinformação, falta de acompanhamento profissional e ausência de estratégias personalizadas. Segundo ele, muitas pessoas treinam sem orientação adequada, seguem dietas extremas retiradas da internet e procuram resultados rápidos, sem compreender que a transformação física exige processo, disciplina e acompanhamento.

    Foi a partir dessa leitura que nasceu a ideia de criar um ginásio diferente: mais profissional, organizado e centrado na experiência do cliente. Um lugar onde as pessoas não encontrassem apenas equipamentos, mas acompanhamento, estratégia, orientação nutricional e resultados reais.

    “Eu queria um espaço onde as pessoas não fossem apenas treinar, mas viver uma experiência de transformação completa. Muitas entram num ginásio motivadas, mas acabam por desistir por falta de acompanhamento adequado, estratégia clara ou suporte emocional ao longo do processo”, explica.

    O espaço criado por Nélio Remane nasce de uma visão mais ampla sobre saúde, bem-estar e transformação pessoal. A proposta diferencia-se por colocar o cliente no centro do processo, reconhecendo que cada pessoa tem um corpo, uma história, uma meta e um ritmo próprios.

    Para Nélio, abrir o ginásio foi também um teste à sua visão empreendedora. O processo exigiu planeamento, investimento, coragem e capacidade de transformar desafios estruturais, financeiros e estratégicos em aprendizagem. Mais do que montar um espaço com equipamentos, era necessário criar uma experiência segura, organizada, sustentável e alinhada com a missão do projecto.

    “Abrir um espaço fitness de qualidade exige muito planeamento, investimento e coragem. Não se trata apenas de encontrar um local e colocar equipamentos; é preciso pensar na experiência do cliente, na organização, na segurança, na qualidade do acompanhamento, na gestão dos custos e na sustentabilidade do negócio”, explica.

    Do ponto de vista financeiro, o desafio foi garantir recursos para construir uma estrutura coerente com a visão da marca. Já no plano operacional, empreender em Moçambique exigi resiliência perante desafios burocráticos, logísticos e de mercado. Para Nélio, cada obstáculo serviu para fortalecer a sua capacidade de liderança, planeamento e gestão.

    “No fim, percebi que abrir o ginásio não foi apenas construir um espaço físico. Foi construir uma visão, uma marca e uma missão. E isso exige coragem, fé, disciplina e compromisso com o propósito.”

    Ao criar o seu próprio espaço fitness, Nélio Remane não procurou apenas abrir mais um ginásio. A sua visão era construir um ambiente com identidade própria, onde treino, nutrição, disciplina, acompanhamento e mentalidade funcionassem de forma integrada.

    Para Nélio, a transformação verdadeira exige uma abordagem completa do corpo e dos hábitos. Não basta treinar com intensidade se a alimentação, a recuperação e o acompanhamento estratégico não estiverem alinhados com os objectivos de cada pessoa. Por isso, o seu projecto integra treino físico, orientação nutricional e monitoria como partes de um mesmo processo de mudança.

    Esta visão surge também num momento em que a preocupação com saúde e bem-estar começa a ganhar espaço no quotidiano dos moçambicanos. O sector fitness deixa, gradualmente, de ser visto apenas como uma tendência urbana ou estética, passando a ser entendido como uma área ligada à saúde, à produtividade, à autoestima e à qualidade de vida.

    “Hoje existe muito mais consciência sobre saúde, bem-estar e qualidade de vida. As pessoas começam a perceber que cuidar do corpo não é um luxo, nem algo ligado apenas à estética. É, acima de tudo, um investimento na saúde, na produtividade, na autoestima e na longevidade”, afirma.

    Para o empreendedor, o sector fitness e wellness tem vindo a ganhar uma nova expressão em Moçambique, impulsionado por uma geração mais consciente sobre saúde, bem-estar, imagem, desempenho e qualidade de vida. Este crescimento representa não apenas uma tendência, mas uma oportunidade económica relevante para empreendedores que saibam aliar profissionalismo, inovação e impacto humano.

    “Acredito que o mercado fitness em Moçambique ainda está numa fase inicial de expansão. Isso significa que existe um potencial enorme para crescimento, inovação e profissionalização do sector. Há espaço para novos serviços, novas abordagens, mais acompanhamento especializado e uma cultura mais forte de prevenção e promoção da saúde. Acredito que, nos próximos anos, o sector fitness e wellness poderá tornar-se uma das áreas mais fortes do país, desde que seja desenvolvido com profissionalismo, ética e inovação.”

    Na sua visão, nos próximos anos, o fitness e o wellness poderão tornar-se áreas de grande relevância no país, desde que sejam desenvolvidas com ética, qualidade e compromisso com resultados reais. A receptividade do público desde a abertura do ginásio tem reforçado essa percepção.

    “Sentimos que as pessoas se identificaram muito com a nossa visão, com a nossa metodologia de trabalho e com o compromisso que temos com resultados reais. Isso mostra que o mercado estava preparado para receber um projecto com uma abordagem mais séria, profissional e focada na transformação completa do cliente”, explica.

    A adesão do público confirma, para Nélio, que existe espaço para propostas diferenciadas, que combinem qualidade, disciplina, nutrição, acompanhamento e excelência no atendimento.

    “Para mim, isso é uma prova de que o sector fitness em Moçambique tem um enorme potencial, desde que seja trabalhado com profissionalismo, propósito e compromisso verdadeiro com as pessoas.”

    Entretanto, esta expansão acontece num mercado ainda marcado por desinformação, promessas rápidas, dietas sem base técnica e métodos sem acompanhamento adequado, o que torna o sector desafiante para quem pretende empreender com seriedade. Para Nélio Remane, é precisamente neste contexto que a confiança se torna o principal activo de uma marca fitness.

    Na sua visão, a credibilidade não se constrói com exageros, resultados artificiais ou promessas impossíveis, mas com conhecimento técnico, ética profissional e compromisso com transformações reais e sustentáveis.

    “Construo confiança através de resultados reais, conhecimento técnico e honestidade com os clientes. Numa área onde existe muita desinformação, promessas exageradas e métodos sem fundamento, acredito que o mais importante é trabalhar com verdade e responsabilidade. Prefiro prometer menos e entregar mais. Não vendo ilusões nem resultados impossíveis”, afirma.

    Por isso, considera fundamentais a disciplina, a liderança, a comunicação, a inteligência emocional, o conhecimento técnico e a visão estratégica. Para Nélio, empreender na área da saúde e do fitness exige muito mais do que gostar de treinar ou ter uma boa imagem física; exige compreender pessoas, orientar com clareza e assumir responsabilidade pelos resultados que se promete ajudar a construir.

    “Empreender nesta área é unir propósito e responsabilidade, porque não estamos apenas a vender treino; estamos a participar na transformação da vida das pessoas”, explica.

    Essa consciência também molda a forma como Nélio Remane encara a pressão de liderar um negócio. Para ele, empreender exige equilíbrio emocional, fé, disciplina e visão de longo prazo, sobretudo quando surgem incertezas, decisões difíceis e responsabilidades que testam a maturidade do empreendedor.

    “Quando assumimos um propósito, somos obrigados a crescer, a amadurecer e a desenvolver capacidades que talvez nem soubéssemos que tínhamos. Por isso, vejo a pressão não apenas como peso, mas também como uma oportunidade de evolução pessoal, espiritual e empresarial”, afirma.

    Na sua trajectória, a pressão deixou de ser apenas um obstáculo e passou a ser parte do processo de crescimento. Cada desafio tornou-se uma oportunidade para fortalecer a liderança, aprimorar a gestão e reafirmar o compromisso com a missão de transformar vidas através da saúde, da disciplina e do fitness.

    Para Nélio Remane, a experiência no fisiculturismo não moldou apenas o corpo, mas também a forma de pensar, gerir e tomar decisões. A mesma lógica aplicada ao treino — consistência, foco, paciência e execução diária — tornou-se uma base importante para a gestão do seu negócio.

    “O fisiculturismo ensinou-me organização, consistência, paciência e controlo emocional. No treino, aprendemos que nada acontece por acaso: cada resultado depende de rotina, foco, sacrifício e execução diária. Essa mesma lógica levo hoje para a gestão empresarial”, explica.

    No seu entendimento, gerir uma empresa exige a mesma mentalidade de quem treina para evoluir. É necessário ter uma visão clara, definir metas, respeitar processos e manter constância mesmo quando os resultados ainda não aparecem.

    “Aplico no negócio os mesmos princípios que aprendi no desporto. A gestão de uma empresa exige a mesma mentalidade de quem treina para evoluir: não basta ter motivação num dia; é preciso disciplina todos os dias.”

    Para Nélio Remane, alcançar resultados consistentes não significa fazer tudo de forma perfeita, mas sim fazer o necessário com regularidade. A verdadeira transformação acontece quando a disciplina deixa de ser um esforço momentâneo e passa a tornar-se hábito; e, com o tempo, esse hábito transforma-se num estilo de vida.

    Essa mesma abordagem é aplicada no acompanhamento dos clientes. Segundo Nélio, quando o entusiasmo inicial diminui, muitos começam a questionar se vale a pena continuar. É precisamente nesse momento que o acompanhamento se torna decisivo. Mais do que alimentar uma motivação passageira, o seu trabalho consiste em ajudar cada pessoa a construir compromisso, disciplina e uma mentalidade capaz de resistir aos dias difíceis.

    “Mostro aos clientes que a transformação não depende apenas de motivação. A motivação é importante, mas oscila. Há dias em que a pessoa acorda motivada, com energia e vontade de treinar; mas também há dias em que o cansaço, os problemas pessoais, a ansiedade ou a falta de resultados rápidos fazem a pessoa querer parar. É nesses momentos que entra o compromisso”, afirma.

    Para Nélio Remane, essa construção de compromisso também passa pela forma como comunica com o público. Num sector em que resultados, confiança e credibilidade são determinantes, a presença digital tornou-se uma extensão natural da marca. Mais do que mostrar imagens, as redes sociais permitem partilhar processos, conhecimento, consistência e proximidade com as pessoas.

    “As redes sociais têm um papel muito importante no crescimento da marca, porque permitem transmitir resultados, conhecimento e proximidade com o público. Hoje, as pessoas querem ver evidências, querem perceber quem está por trás do serviço e sentir confiança antes de tomar uma decisão”, explica.

    Na sua visão, a autoridade digital tornou-se essencial no mercado actual. As pessoas procuram confiança, credibilidade e identificação. Ao partilhar conteúdos educativos, resultados de clientes, rotinas, mensagens de motivação e orientações práticas, Nélio aproxima-se do público e demonstra que o seu trabalho tem base, método e propósito.

    Por isso, encara as redes sociais como uma ferramenta estratégica para educar, inspirar, atrair clientes e consolidar a marca. Ainda assim, defende que essa presença deve ser usada com responsabilidade, mostrando a realidade do processo e não apenas resultados rápidos ou ilusórios.

    Nessa mesma linha, pretende posicionar a marca, nos próximos cinco anos, como uma das principais referências em fitness, nutrição e transformação humana em Moçambique. A expansão faz parte da sua visão, mas deve acontecer com qualidade, propósito e responsabilidade.

    “O crescimento faz parte da nossa visão, mas queremos crescer com qualidade, propósito e responsabilidade. Para mim, não basta expandir; é preciso manter a essência, a excelência e o compromisso com resultados reais”, afirma.

    O futuro passa pela construção de um ecossistema mais completo, combinando treino, nutrição, performance, suplementação e acompanhamento especializado, de modo a responder às diferentes necessidades dos clientes.

    “Queremos que as pessoas encontrem num só ecossistema tudo aquilo de que precisam para melhorar a sua saúde, transformar o corpo e desenvolver uma mentalidade mais disciplinada”, explica.

    Mais do que crescer comercialmente, Nélio Remane quer construir uma marca reconhecida pelo impacto real na vida das pessoas.

    “Quero que o meu projecto seja lembrado como uma marca que transformou vidas, elevou a consciência sobre saúde e mostrou que disciplina, visão e consistência podem mudar o destino de uma pessoa.”

    Aos que desejam cuidar melhor da saúde, deixa uma mensagem simples: começar pelo básico e manter consistência. Para ele, pequenas mudanças diárias como — melhorar a alimentação, beber mais água, dormir melhor, caminhar, treinar com regularidade e cuidar da mente — podem gerar grandes resultados ao longo do tempo.

    “A saúde é um investimento, não um gasto”, reforça.

    Aos jovens que querem empreender, Nélio aconselha coragem e acção. O medo faz parte do processo, mas não deve impedir o primeiro passo.

    “Comecem com aquilo que têm. Não esperem pelas condições perfeitas, porque muitas vezes elas nunca chegam. Uma ideia só ganha vida quando sai da mente e entra em acção.” Concluiu!

    A trajetória de Nélio Remane mostra que o fitness pode ser muito mais do que treino físico: pode ser disciplina, saúde, negócio, propósito e transformação humana. Ao unir fé, visão empreendedora, conhecimento técnico e compromisso com resultados reais, Nélio representa uma nova geração de profissionais que olha para o bem-estar como oportunidade de impacto e desenvolvimento. A sua história reforça que, quando existe propósito, consistência e coragem para executar, um ginásio deixa de ser apenas um espaço de exercícios e passa a tornar-se um lugar onde vidas são reconstruídas, hábitos são transformados e pessoas redescobrem a confiança em si mesmas.

  • Ser Empresário em Moçambique: Uma conversa com Salimo Abdula

    Ser Empresário em Moçambique: Uma conversa com Salimo Abdula

    “Procurem não correr atrás de muitos sonhos. Definam o vosso grande sonho e corram atrás dele, para não se perderem pelo caminho.”

    O conselho, directo e pragmático, é dirigido sobretudo à juventude que ambiciona entrar no mundo empresarial. Para Salimo Abdula, a dispersão é um dos principais inimigos do crescimento: quando o jovem persegue demasiadas metas em simultâneo, corre o risco de perder direcção, energia e consistência. O primeiro passo, defende, é identificar um grande objectivo, assumir o compromisso com esse propósito e avançar com disciplina.

    Natural de Quelimane, na província da Zambézia, Salimo Abdula viveu parte da infância na aldeia de Maruro, onde a língua predominante é o cisena. Filho de pai natural de Inhambane e mãe de Sofala, construiu um percurso que combina raízes diversas, experiência acumulada e uma ligação profunda ao país real. Fora da vida empresarial, define-se como homem de família e pai de três filhos. Há mais de 30 anos fixou-se em Maputo, onde consolidou a sua actividade empresarial e liderança institucional.

    Salimo sublinha que a formação que recebeu em casa foi determinante para o seu crescimento. Os pais, explica, não tinham grande capacidade financeira, mas transmitiram-lhe valores sólidos – ética, respeito, disciplina e sentido de responsabilidade. Esses princípios, afirma, continuam a ser o alicerce do seu desempenho e reputação.

    Para além do núcleo familiar, destaca igualmente a influência dos tios Carimo e Baiana, que o acolheram para que pudesse prosseguir os estudos, numa época em que a aldeia onde vivia não dispunha de escolas. Fez o ensino primário em Quelimane, estudou na Ilha de Moçambique após a transferência dos pais e, em Nampula, frequentou o Instituto Comercial. Mais tarde, passou pela Beira e por Maputo, sempre com o objectivo de continuar a formação.

    Na Cidade da Beira, concluiu o Instituto Comercial e foi afecto à Direcção Provincial de Comércio. Nos tempos livres, trabalhava numa empresa de engenharia, experiência que complementava a sua formação. Mas a ligação ao trabalho vem de muito cedo: aos 13 anos, em Quelimane, realizava actividades num bar para contribuir para a economia familiar.

    O seu percurso inclui também uma passagem marcante pelo desporto. Foi jogador de basquetebol no Palmeiras da Beira, conheceu Maputo em competições nacionais e, já na capital, jogou pelo Maxaquene, onde se sagrou campeão. A carreira desportiva terminaria mais tarde, mas a disciplina do desporto, como se percebe ao longo da entrevista, deixou marcas na forma como encara metas, compromisso e ética.

    Do abandono à liderança empresarial

    Em entrevista à Revista Negócios no Chiveve, Salimo Abdula descreve o percurso desde os primeiros passos até se tornar, nas suas palavras, um empresário “sustentável”. O início, porém, esteve longe de ser fácil. Entrou no mundo empresarial através da aquisição de uma empresa falida e abandonada, num contexto em que a legislação da época previa intervenção do Estado caso os proprietários deixassem uma empresa inactiva por mais de 90 dias.

    A empresa chamava-se Iluminate, dedicada à venda de material eléctrico e à execução de obras de engenharia electrotécnica – e já fazia parte do seu percurso como trabalhador na Beira.

    “Quando eu estava na Beira a estudar, fazia parte de uma empresa chamada Iluminate. Mais tarde, quando os proprietários abandonaram a empresa, fui contactado para saber se queria candidatar-me. Ninguém quis assumir porque a empresa estava abandonada. Foi assim que entrei para o mundo empresarial.”

    As dificuldades foram muitas, admite. Mas persistiu e, antes mesmo de completar 20 anos, já ocupava o cargo de presidente do Conselho de Administração da sua primeira empresa. Posteriormente, fundou a Eletrosul e, actualmente, é PCA da Intelec Holdings, grupo que integra a lista das principais holdings de Moçambique. Ao longo do percurso, exerceu funções de elevada responsabilidade em organizações participadas, incluindo a presidência do conselho de administração da Vodacom e a administração de instituições bancárias, como o Banco Único e o Banco ICB.

    O empresário recorda ainda a liderança associativa e cívica: foi Presidente da Direcção e Presidente da Mesa da Assembleia-Geral na CTA, e foi deputado na Assembleia da República na primeira Legislatura Multipartidária.

    Política, princípios e conflito de interesses

    Questionado sobre as razões que o levaram a abandonar a vida política, Salimo Abdula é claro: preferiu o caminho empresarial e evitou colocar-se em contextos de conflito de interesses. A ética, diz, é essencial numa economia que pretende crescer com credibilidade.

    “Evitar o conflito de interesses é muito importante. Muitas vezes somos jogadores e árbitros. Isso é perigoso. Temos problemas sérios quando há pessoas no sector político a tomar decisões sobre áreas empresariais onde estão envolvidas.”

    Explica que entrou para a política num momento de transição nacional, quando o país iniciava a experiência multipartidária e havia necessidade de incluir pessoas com experiência na economia real. No entanto, ao longo do mandato, percebeu que a ausência estava a fragilizar as empresas e que precisava de tomar uma decisão.

    “Verifiquei que as minhas empresas estavam em decadência. Ou continuava com a vida política, ou ficava numa situação difícil. A minha esposa teve de deixar a medicina para ajudar a empresa, porque eu estava muito ausente. No final do mandato, em 1999, decidi abandonar a política.”

    Depois disso, optou por contribuir para o país através da via associativa – uma forma de apoiar o desenvolvimento sem se ligar directamente ao jogo político.

    Para explicar a lógica de valores que defende, usa uma comparação com o futebol:

    “Quando abraço uma causa, visto aquela camisola e luto por ela. É como um jogador: enquanto está num clube, deve lutar por aquela camisola. Depois pode mudar, mas com ética e valores.”

    A CPLP e o desafio de uma agenda comum

    Actualmente, Salimo Abdula é Presidente da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP), uma estrutura que representa o patronato na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Conta que, inicialmente, a liderança era rotativa, mas, a partir de 2014, passou a ser eleita. Concorrendo com um empresário angolano, foi eleito com apoio significativo dos países membros, tendo sido depois reeleito.

    Quanto aos desafios, reconhece que são complexos: trata-se de harmonizar interesses e definir uma agenda comum para nove países com realidades distintas. O primeiro mandato foi, sobretudo, de reestruturação institucional e estabilização financeira. Hoje, o foco é criar valor dentro da comunidade, através de mobilidade, circulação de bens e capitais, e aproveitamento estratégico dos recursos existentes.

    Um dado sobressai: na visão do empresário, a CPLP é maioritariamente jovem e esse facto representa energia e potencial, desde que orientado para a criação de valor.

    “A comunidade tem uma população maioritariamente jovem. Isso é energia. Mas tem de ser trabalhada para gerar emprego, empresas e conhecimento tecnológico.”

    Aponta ainda sectores estruturantes para o futuro: agronegócio e energia, defendendo que a CPLP pode afirmar-se globalmente se actuar em conjunto, apesar das limitações impostas por agendas internas e dificuldades de execução coordenada.

    O que significa “sucesso” em Moçambique?

    A pergunta é inevitável: o que é ser um empresário de sucesso em Moçambique? Salimo Abdula começa por desconstruir a ideia de que sucesso se resume à riqueza acumulada, lembrando que, por vezes, se confunde “sucesso” com ganhos rápidos e pouco produtivos.

    “Há quem associe empresário de sucesso a quem ganha riqueza sem passar por um processo produtivo.”

    Para si, sucesso é equilíbrio: conseguir trabalhar, cumprir responsabilidades, sustentar a família, criar emprego, honrar compromissos e contribuir para a economia do país.

    “Se eu consigo trabalhar, pagar responsabilidades, sustentar a minha família, criar riqueza e emprego, honrar compromissos… isso é sucesso.”

    Sublinha ainda que o sucesso empresarial é geracional: não basta construir; é preciso transmitir valores e visão aos sucessores, para que não se tornem apenas herdeiros, mas continuadores de um legado.

    E deixa três pilares essenciais: Persistência; Consistência nos objectivos e Honestidade

    “Se conseguimos deitar-nos e dormir de consciência tranquila, sem dever, sem ter passado por cima de ninguém, isso é sucesso. Muitos acham que sucesso é ter muito dinheiro… eu conheço muita gente muito pobre que a única coisa que tem é dinheiro.”

    Lições, foco e sustentabilidade

    Salimo Abdula admite que aprendeu muito de forma empírica, com erros e reorientações. Uma das maiores lições foi manter o foco e não confundir receitas com lucros – uma recomendação directa aos jovens empreendedores. Defende ainda crescimento sustentável: o lucro não deve ser consumido integralmente; deve haver disciplina financeira e reinvestimento.

    Do ponto de vista macro, reconhece desafios estruturais que afectam o empresariado: paz, acesso a financiamento sustentável, tecnologia, e também logística, que considera onerosa e limitadora da competitividade interna.

    Outro factor de preocupação é a insegurança, com destaque para a tendência de aumento de sequestros, que afecta a estabilidade social e compromete a atracção de investimento.

    “Sem paz dificilmente progredimos. A paz é prioritária para todos.”

    Reconhecimento internacional e responsabilidade

    Em 2020, Salimo Abdula foi distinguido com um prémio internacional, o EuroKnowledge 2020, atribuído anteriormente a figuras empresariais de grande destaque. Para o empresário, a distinção representa prestígio pessoal, mas também responsabilidade colectiva: serve para demonstrar que Moçambique não é apenas um país de notícias negativas, e que existem referências com trabalho sério e reconhecimento internacional.

    “É uma enorme responsabilidade. Um prémio destes aumenta a exigência sobre nós e sobre a imagem do país.”

    Conclui reconhecendo que o prémio resulta de uma combinação de liderança, filantropia e princípios – e reafirma a ligação afectiva às suas origens, que continuam presentes na sua identidade e forma de actuar.

  • Marlene de Sousa: Uma Mulher com a Vida resumida em Recursos Humanos

    Marlene de Sousa: Uma Mulher com a Vida resumida em Recursos Humanos

    Aos 31 anos, Marlene de Sousa construiu um percurso profissional que faz dos Recursos Humanos muito mais do que uma área de actuação: fez deles uma missão. Natural de Quelimane, é licenciada em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, com pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos e mestrado em Políticas de Desenvolvimento de Recursos Humanos. É fundadora da ATITTUDE e dinamizadora de várias iniciativas de referência no sector.

    Em conversa com a Revista Negócios no Chiveve, Marlene revela que foi ainda no segundo ano da licenciatura que percebeu que Relações Internacionais não era a sua verdadeira paixão. Ainda assim, concluiu o curso, consciente de que a formação académica era uma base — mas não o destino final. Foi nesse percurso que descobriu que Recursos Humanos seriam o eixo central da sua vida profissional.

    O regresso a Moçambique e o primeiro choque com a realidade

    Em 2014, regressou a Moçambique após concluir os estudos em Portugal. O entusiasmo do regresso confrontou-se rapidamente com a realidade do mercado de trabalho: mais de quatro meses de desemprego, enviando currículos e aguardando respostas.

    “Fiquei quatro meses sentada no sofá a enviar e-mails à procura de emprego. Muita gente acredita que estudar fora garante colocação imediata quando regressa, mas a verdade é que é preciso persistência.”

    A primeira oportunidade surgiu sob a forma de estágio, numa empresa de consultoria, onde permaneceu seis meses. Longe de ser um simples ponto de passagem, essa experiência revelou-se determinante.

    Aprender fazendo: a escola da prática

    Marlene descreve essa primeira empresa como uma verdadeira escola prática. Por se tratar de uma estrutura pequena, teve contacto com várias áreas para além dos Recursos Humanos, incluindo a área comercial. Essa vivência transversal deu-lhe uma compreensão ampla do funcionamento das organizações — e plantou a semente do empreendedorismo.

    “Tive uma líder que percebeu que eu tinha asas e nunca mais cortou. Aprendi muito e percebi que a minha ambição de fazer mais e de impactar pessoas e o país não me permitiria ficar limitada.”

    Foi assim que, em 2015, nasceu a ATITTUDE — nome que, como a própria explica, reflecte a sua postura perante a vida e os negócios. Uma empresa que hoje orgulhosamente actua a nível nacional e começa a consolidar presença internacional.

    ATITTUDE e o Fórum RH: quando o mercado ganha uma referência

    Nos últimos anos, a ATITTUDE registou um crescimento consistente. Através desta empresa, Marlene criou um dos eventos mais relevantes do sector em Moçambique: o Fórum RH. Concebido, organizado e gerido por uma equipa jovem e altamente comprometida, o Fórum rapidamente ultrapassou fronteiras.

    “Hoje o Fórum RH acontece, para além de Moçambique, em Angola, Cabo Verde e Portugal. Somos uma referência.”

    Para além do evento, a ATITTUDE posiciona-se em recrutamento, consultoria de RH e apoio ao set-up de multinacionais, actuando em diferentes sectores de actividade. Ainda assim, Marlene sublinha que a visão está longe de estar concluída: o foco é aprender continuamente com o mercado e encontrar soluções diferenciadoras.

    Com a expansão internacional do Fórum RH, tornou-se necessária uma estrutura autónoma, dedicada exclusivamente ao seu desenvolvimento, comunicação, imagem, parcerias e adaptação estratégica aos diferentes países.

    “Temos um projecto de expansão muito estruturado. Vale a pena ficarem atentos, porque vêm muitas novidades.”

    A partir de 2021, a ATITTUDE passou a posicionar-se de forma ainda mais focada no desenvolvimento dos Recursos Humanos em Moçambique e em África, com o Fórum RH como eixo central.

    Outras iniciativas e o espírito empreendedor

    Mas a vida profissional de Marlene de Sousa não se esgota na ATITTUDE e no Fórum RH. A empreendedora está igualmente envolvida em outras iniciativas estratégicas, como a Cimeira Lusófona de Liderança e o Mozambique Marketing Summit.

    A Cimeira Lusófona de Liderança, criada em parceria com Anabela Chastre, visa reunir líderes dos países lusófonos para debater diferentes abordagens de liderança. Já o Mozambique Marketing Summit nasce da mesma lógica de criação de redes, partilha de conhecimento e fortalecimento de competências.

    “Gosto muito de networking. No sector em que actuo, é fundamental. O meu espírito empreendedor leva-me naturalmente a envolver-me em várias iniciativas.”

    Desafios de crescimento e liderança

    Reconhecida nacionalmente como uma referência em Recursos Humanos, Marlene aponta como principal desafio actual manter a equipa alinhada com a visão da empresa, assegurando que a qualidade e o compromisso se mantêm à medida que a estrutura cresce.

    “Há uma fase em que precisamos de olhar para o nosso negócio como se estivéssemos de fora. Isso ajuda-nos a reduzir erros e a criar estrutura para o próximo nível.”

    “Mundo RH em Moçambique”: quando as histórias inspiram

    Recentemente, lançou o livro “Mundo RH em Moçambique”. Mais do que um exercício literário, o livro surge como uma ferramenta de posicionamento e criação de referências no sector.

    “As pessoas mudam através de histórias. E o país tem poucas referências visíveis em Recursos Humanos.”

    A obra resulta de entrevistas a directores de RH das maiores empresas do país, organizadas a partir de um guião comum. O conteúdo foi compilado e estruturado por Carina Fernandes, gestora de conteúdos, e posteriormente editado em Portugal pela Editora RH. O título foi sugerido por Pedro Ramos, Director de RH do Grupo TAP Portugal.

    Concluído em apenas seis meses, o livro baseia-se em testemunhos reais, sem pretensão académica, orientado sobretudo para futuros profissionais de RH.

    “Vai inspirar e mostrar como se chega a Director de RH das maiores empresas do país.”

    Estão previstos uma segunda edição e um novo projecto editorial com abordagem mais internacional.

    Mulher, liderança e responsabilidade social

    Ao reflectir sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea, Marlene é clara: é fundamental que as mulheres acreditem mais em si próprias, arrisquem e deixem de procurar validação externa.

    “Precisamos de mais mulheres focadas no que as faz felizes, e não no que a sociedade espera delas.”

    Defende que cada mulher deve reconhecer as suas fragilidades e transformá-las em força, vivendo de forma autêntica a vida pessoal e profissional.

    “Só temos uma vida. Não faz sentido não sermos aquilo que sonhamos ser.”

    Marlene conclui deixando um apelo mais amplo: que cada moçambicano, na sua área de actuação, faça mais, procure soluções e contribua activamente para o desenvolvimento do país.

  • Delfina de Nogueira: Visão e Liderança no Sector da Educação na Cidade da Beira

    Delfina de Nogueira: Visão e Liderança no Sector da Educação na Cidade da Beira

    No contexto das transformações sociais e económicas que marcam o país, a educação assume-se como um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento sustentável. É neste cenário que se destaca o percurso de Delfina Nogueira, empreendedora e fundadora da Escola Primária Palmo e Meio, uma iniciativa que alia qualidade pedagógica, formação humana e compromisso com o futuro das crianças da Cidade da Beira.

    Natural da Beira, Delfina Nogueira é filha de uma mãe sofalense e de um pai zambeziano. É licenciada em Ensino de História pela Universidade Pedagógica e exerce actualmente as funções de Directora da Escola Primária Palmo e Meio. A sua ligação ao sector da educação iniciou-se há cerca de cinco anos, no ensino pré-escolar, tendo em 2018 expandido o projecto para o ensino primário, abrangendo da 1.ª à 5.ª classe.

    A opção pela educação resulta, em primeiro lugar, da sua identidade profissional enquanto professora e da afinidade natural com o trabalho com crianças. Ao longo da sua trajectória profissional, acumulou experiências em áreas como administração, logística e finanças, tendo igualmente gerido um centro de formação profissional com doze departamentos de ensino, que iam desde a construção civil e mecânica até à educação de infância e culinária. Este percurso diversificado dotou-a de competências técnicas e de gestão que lhe permitiram criar a sua própria iniciativa empresarial, alinhando vocação, experiência e visão estratégica.

    Apesar da formação em História, Delfina considera que esta área teve um papel determinante na forma como encara o empreendedorismo. A História, afirma, amplia horizontes, desenvolve pensamento crítico e permite compreender o mundo para além da experiência imediata. Essa capacidade de leitura contextual contribuiu para encarar a criação da escola com optimismo, responsabilidade e sentido de missão.

    O quotidiano enquanto empreendedora é marcado por desafios constantes, comuns a qualquer gestor. No entanto, Delfina adopta como princípio orientador a persistência e a resiliência. Defende uma liderança participativa, baseada na partilha de responsabilidades, desafios e conquistas com a equipa. Não se vê como chefe, mas como líder, acreditando que a gestão se torna mais eficaz quando todos se sentem parte integrante do projecto.

    Esta abordagem reflecte-se na relação próxima com os colaboradores, assente em confiança, respeito e sentido de pertença. Para Delfina, a gestão eficaz não depende de fórmulas complexas, mas sim de trabalho consistente, responsabilidade, honestidade, simplicidade e humildade — valores que considera essenciais para a sustentabilidade de qualquer organização.

    No plano familiar e social, mantém a mesma simplicidade que sempre a caracterizou. O que mudou, reconhece, foram as responsabilidades acrescidas. O facto de ter familiares igualmente envolvidos em actividades empreendedoras facilita o diálogo, a partilha de experiências e a reflexão conjunta sobre inovação, gestão e crescimento.

    Gerir uma escola primária implica uma responsabilidade particular, por se tratar da formação das gerações futuras. Delfina admite que não é um desafio simples, mas sublinha a importância de uma equipa qualificada e do gosto genuíno pelo trabalho com crianças, factores que tornam o processo mais equilibrado e gratificante.

    Relativamente ao posicionamento da Escola Primária Palmo e Meio, Delfina não se coloca numa lógica de comparação, mas assume um compromisso claro com a qualidade do serviço educativo e com a formação integral da criança. Para si, a educação deve ir além do domínio técnico e académico, incorporando valores humanos universais como respeito, honestidade, tolerância e responsabilidade. Num contexto em que a sociedade tende a privilegiar competências técnicas em detrimento da ética, a escola procura formar crianças preparadas não apenas para o sucesso académico, mas para a vida em sociedade.

    Quanto ao papel da mulher no mundo dos negócios, Delfina manifesta uma visão positiva e confiante. Observa um número crescente de mulheres empreendedoras na Beira e em todo o país e rejeita a ideia de limitações baseadas no género. Defende que a presença feminina na gestão acrescenta valor às organizações, pela visão global, sensibilidade social e capacidade multifacetada que muitas mulheres desenvolvem ao longo da vida.

    Para Delfina Nogueira, a chave do sucesso assenta em três pilares fundamentais: trabalho, responsabilidade e humildade. Olhando para o futuro, define como meta que, num horizonte de cinco anos, a Escola Primária Palmo e Meio seja reconhecida a nível provincial como uma referência em educação de qualidade, contribuindo para o resgate de valores humanos e para o desenvolvimento cognitivo e social das crianças que por ela passam.

    Às mulheres que desejam iniciar-se no mundo dos negócios, deixo uma mensagem clara: não desistam dos seus sonhos. Segundo Delfina, não é necessário dispor de grandes recursos financeiros para começar; é possível iniciar com pouco, desde que existam foco, persistência e determinação. Num país com amplo espaço para empreender, acredita que a força e a resiliência da mulher moçambicana continuam a ser motores essenciais de transformação.

    Assim se apresenta o percurso de Delfina Nogueira, uma mulher que demonstra que empreender não é uma questão de dimensão, mas de propósito, impacto e legado.