Empoderamento económico feminino com Maria Pinto de Sá

Executiva a conduzir uma reunião

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EMPODERAMENTO Com Maria Pinto de Sá Presidente da Casa do Artista D E S T A Q U E ECONÓMICO FEMININO NACIDADEDABEIRA

A história não foi muito amiga das mulheres. E hoje, sabemos lidar com a inteligência no feminino e racionalmente lutar para desenvolvêla e coloca-la em acção histórica? Votamos tantas leis que as protegem, como professoras são responsáveis pela educação de crianças e adolescentes, têm direitos e deveres, têm liberdade de decidir a sua sorte, traçar o seu caminho, e o mercado está cada vez mais aberto e globalizado. Para entender essa mudança do mercado o Beira Connect teve o prazer de conversar com a Maria Pinto de Sá, presidente da Casa do Artista, uma associação cultural sem fins lucrativos, e um bem pertencente a sociedade civil no geral, independentemente dos membros fundadores que a constituem ao mais alto nível organizacional. Aos 16 anos já fazia parte de um importante grupo de teatro na então cidade de Lourenço Marquês (actual Maputo), o teatro de amadores de Lourenço Marquês, e aos 23 anos consegui o meu primeiro emprego como jornalista numa revista que era contra o regime colonial e que teve um importante papel para a libertação de Moçambique. Mais tarde em 1977, trabalhei por 1 ano na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), onde estava a frente da biblioteca dos centros de estudos africanos e duma série de sectores que trabalhavam para, ou estavam ligados à universidade, portanto, era o centro de documentação da universidade. Naquele ano havia muita falta de professoras, pelo que pediram-me para dar aulas e assim o fiz, estive a dar aulas de português e de desenho na Josina Machel. Mesmo na Josina Machel eu era responsável pelo departamento de Cultura na direcção, portanto, continuei ligada à cultura. Também trabalhei na TVM em programas culturais; nessa altura trabalhei com Mia Couto num programa humorístico chamado “Tele Rir”, onde ele escrevia os textos e eu como actriz os interpretava. Foi um trabalho muito interessante, criticávamos com muito humor e muita brincadeira os erros que nós mesmos cometíamos em televisão. Acredito que a mensagem chega com mais leveza quando transmitida com humor, pois não há zangas, não há mal entendidos; através do humor pode se transmitir mensagens muito directas sem que as pessoas visadas sintam-se ofendidas. Daí que usamos este meio para levar a cabo críticas sociais. Contudo, nunca deixei o teatro, paralelamente a essas actividades continuava com o teatro. “Sou uma mulher que desde miúda os pais incentivaram a gostar da arte e a preocupar-se com problemas e questões culturais.

Também trabalhei num grupo fundador de uma associação cultural que teve uma grande importância a nível cultural em Maputo, o grupo “Txova-Xitaduma”, que significa empurre que pega traduzido para o português (a ver se o retro pega), e realmente pegou. Também apresentei muitas peças, ganhei prémios, e era tão super-activa que quando houve uma onda de rescisões no grupo, eu fiquei na liderança de um dos grupos. Por iniciativa própria, também criei grupos de teatro a nível das empresas e escolas, foi uma coisa muito interessante trabalhar começando do zero. Mais interessante foi ver um grupo de trabalhadores que depois do seu trabalho, da sua jornada laboral, queriam lá (no trabalho) permanecer porque queriam apresentar uma peça teatral. Hoje em dia é muito difícil! Acredito que hoje, também não conseguiria começar do zero. Não obstante, foi muito gratificante, guardo muito boas memórias daqueles tempos. Mais tarde a rádio Moçambique pediu-me para dirigir o sector de teatro e literatura, foi então que deixei a educação e fui continuar com o meu trabalho, sempre ligado à cultura, onde estive por muitos anos até 1990, o ano em que vim para a cidade da Beira. Então tenho toda uma vida nisso, ou seja, tenho o privilégio de poder fazer aquilo de que gosto. Hoje olhando para a questão do empoderamento feminino em Moçambique, penso que duma forma geral, a nível do governo tem-se dado uma grande importância a mulher. Podemos ver o número de ministras e vice-ministras que este governo tem, não é! A nível de empresas também, mesmo cá na Beira não há nenhuma barreira em contratar mulheres. Acho é que se uma mulher tem a mesma competência que um homem, é evidente que a mulher está igualmente qualificada para exercer determinada actividade. Por uma razão histórica durante muito tempo a mulher não teve acesso ao ensino. Ainda hoje, em sociedades tradicionais a mulher é vista como um ser inferior. Portanto, penso que se os dois (o homem e a mulher) tiverem a mesma competência, o mesmo valor se deve dar a mulher. Ela tem de se impor pelas suas qualidades.

Tem de se impor pelo seu valor; não tem de andar por ai a pedir favores a ninguém, essa é a forma para dar visibilidade ao seu crescimento. Pelo menos dentro da minha associação é bem-vinda qualquer pessoa que tenha competência. Porque eu não gosto muito, <não gosto mesmo> do Feminismo. Lá porque é mulher que gera um filho, porque é mulher que aguenta com isto e aquilo…, é o máximo?! E quanto ao homem? Eu não gosto desse tipo de descriminação, <porque no fundo isso acaba por ser uma descriminação.> Agora, fico muito feliz em ver que há jovens mulheres com capacidades, e são bem-vindas aqui na casa do artista pelas competências que têm. Até porque trabalho muito com mulheres, mas mulheres competentes. E também trabalhamos com projectos e parcerias. E é muito interessante porque por exemplo, dentre as parcerias temos algumas associações que têm a mulher na frente e neste momento estou a trabalhar num projecto com o MASC, uma fundação que tem a ver com cidadania, e lá estou a trabalhar com 4 mulheres. Somos apenas mulheres, e isso dá um prazer muito grande. Todavia, não há aqui nenhum pacote especial para mulheres ou para homens mas sim para os que mostram competência e capacidades, só para vermos, somos 10 sócios fundadores, e a maioria são homens, no total de 10 somos apenas 3 mulheres, e ninguém foi escolhido, associou-se quem quis. Não temos aqui trabalhadores, são sócios fundadores que até muitos deles nem cá aparecem porque não estão na Beira, como por exemplo o próprio ministro da cultura que é sócio fundador desta associação mas não está cá, e outros sócios que têm outras tarefas para além da casa do artista. Então acho que de uma maneira geral a mulher tem muita capacidade para gerir, o que ajuda no seu crescimento no mundo dos negócios e no seu empoderamento. E também temos o grande aliado que é o mercado local que abre espaço para mulheres. Porque se formos analisar, o grande problema não está nas empresas, não está no governo, não está no criar alguma barreira na mulher, o grande problema está na cabeça de alguns homens que em sua casa tratam mal as mulheres, no emprego tentam o assédio porque a sociedade, e não só a sociedade moçambicana, não só a africana, mas toda a sociedade especialmente a dos países latinos, o homem é o macho, é o “super-macho”! Isso é que temos de combater impondo-nos com vigor. Claro que é muito difícil ultrapassar isto, porque se a mulher está por exemplo economicamente dependente do homem como é que ela se pode impor? Vai gritar com o homem? Se o fizer vai sair de casa e não terá meios de sobrevivência. Vai viver mal, ou vai ter de arranjar uma alternativa terrível para conseguir sobreviver. Portanto, o conselho que eu dou sempre, é de que estudem. Embora, muitas vezes quando se dá conselhos aos jovens nunca ouvem. Eu também já fui jovem e não ouvia. Mas sem dúvidas, quem tem o privilegio de poder estudar, especialmente as mulheres que tiverem essa oportunidade, agarrem com unhas e dentes porque só assim é que podem ultrapassar os maus tratos dos homens e terem

possibilidades de se manterem economicamente e se autossustentarem Existem muitas dificuldades para se engrenar no mundo dos negócios no nosso país. Porém, a grande dificuldade em abrir um negócio não tem a ver com o ser homem ou ser mulher, tem a ver com burocracia. A quantidade de papéis absurdos que são exigidos, despachados sem sequer terem sido lidos, <disso eu sei>, casos concretos aconteceram comigo. Essa é que é a grande questão. Agora, eu não concordo quando diz que a mulher não tem a mesma capacidade que o homem tem para abrir negócios, ela tem. Vou dar um exemplo concreto, eu tinha a minha melhor amiga que infelizmente já não faz parte deste mundo, ela era uma pessoa incrível que tinha uma capacidade de fazer dinheiro, uma capacidade incrível digo, lembro-me de que uma vez ela disse que queria ganhar dinheiro, queria ser rica! E ao fim de 3 meses estava a facturar 80 mil dólares por mês. Ela do nada criou uma empresa e era representante de pilhas Duracell e do produto gilete em Maputo, ela facturava 80 mil dólares por mês. Bom, a riqueza nem sempre traz felicidade, infelizmente ela morreu por suicídio. Isto para dizer que não é por ser homem ou mulher. Há pessoas que tem esse fim de fazer dinheiro, eu por exemplo não sei se tenho esse dom, nunca me meti num negócio para ganhar dinheiro. Eu não sou menina grande amante de dinheiro, não sou uma lutadora nessa área, sou uma empreendedora em fazer coisas de que gosto. Eu não paro. Vivo a cultura!. As pessoas questionaram a minha vontade e sonho de reconstituir as ruínas da casa do artista, mas eu disse eu quero, eu tenho fé e vou conseguir, eis que consegui. Claro que temos sempre um degrau por subir, nunca cruzo os braços. O que quero agora é conseguir mais espaço por cá (Beira), preciso de espaço físico para dar aulas na área de artes plásticas e da dança, e vou conseguir. Isso é o que eu acho que é ser empreendedor, não só a nível de ganhar dinheiro. Ver o ecossistema empresarial local daqui a 5 anos é difícil porque depende de muita coisa, não é! Depende da situação política, e nós não sabemos o que o dia de amanhã nos guarda. Eleições, qualquer partido pode perder ou ganhar e tudo isto pode mudar completamente o destino do país. Então é muito difícil, em 5 anos muita coisa pode acontecer. Isso tudo condiciona a questão económica. Todavia, acredito que daqui a 5 anos estaremos mais desenvolvidos economicamente do que estamos hoje, e espero bem que sim.

Para finalizar deixo aqui conselhos para as mulheres que pretendem empreender, o primeiro ponto para mim é a honestidade, eu tenho muito orgulho em dizer que nesta associação onde estamos, a casa do artista, que consegui porque nunca na minha vida desviei 1 centavo que fosse para outros fins, isso dá-nos credibilidade. Antes de tudo eu detesto pedir, e disso gostam em mim! A política não dá mão estendida não. Outro Conselho é termos uma folha absolutamente branca sem nada que manche o nosso nome em relação a corrupções ou negócios obscuros. Nisso eu tenho muito orgulho, não tenho, e nunca fiz nada de desonesto em relação ao dinheiro que me pudesse arrepender. Esta reabilitação da casa do artista custou 1 milhão de dólares e não falta 1 centavo sequer neste dinheiro. Tenho tudo registado, tudo limpo. Isto é o que aconselho, não entrem em negócios obscuros. Sejam rigorosamente honestas consigo mesmas e com os outros. Assim foi a conversa sobre o empoderamento feminino com a experiente e inspiradora Maria Pinto de Sá. E ficou o essencial, hoje faz-se necessária a competência, e competência competitiva, para navegar em um universo globalizado e aberto que hoje vivemos. Competência competitiva para ser auto sustentável, independentemente do nosso género ou de quanto recebemos de salário. Só assim teremos a condição sine qua non (sem a qual não) para ganhar independência económica, para viver em segurança e em liberdade. Ora, na antiguidade as mulheres eram tidas como infantis, hoje não há espaço para isso, e tampouco os homens estão dispostos a sustentar as “mulheres modernas”. Elas não precisam pedir, porque podem construir a sua grandeza feminina. Por:EquipeBeiraConnect

Publicado originalmente na edição Negócios no Chiveve – Março 2018. Consultar a revista completa em PDF.