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  • Eleições na ACB: Félix Machado Reeleito por Unanimidade para Liderar um Novo Ciclo Empresarial na Cidade da Beira

    Eleições na ACB: Félix Machado Reeleito por Unanimidade para Liderar um Novo Ciclo Empresarial na Cidade da Beira

    A Associação Comercial da Beira (ACB), uma das mais antigas e representativas organizações empresariais de Moçambique, realizou, no dia 21 de Maio de 2026, a sua Assembleia Geral Ordinária, no Salão Nobre da instituição. A sessão decorreu ao abrigo do Artigo 33 dos Estatutos da ACB e teve como pontos principais da agenda a apresentação e aprovação do Relatório de Actividades e Contas de 2024/2025, bem como a eleição dos novos órgãos sociais da Associação.

    O momento assumiu particular relevância para o sector empresarial da Beira e de Sofala, não apenas pelo acto eleitoral em si, mas também pelo significado institucional de continuidade, confiança e renovação estratégica. No final da sessão, Félix Jaime Machado foi reeleito por unanimidade à Presidência da ACB, reafirmando o reconhecimento dos associados pelo trabalho desenvolvido e pela visão apresentada para o novo ciclo.

    A reeleição de Félix Machado representa, para muitos empresários, a confirmação de uma liderança que tem procurado fortalecer o papel da ACB como voz activa do sector privado, plataforma de diálogo público-privado e espaço de promoção de oportunidades para empresas de diferentes dimensões. O lema da candidatura, “Por uma ACB Forte, Representativa e Inovadora”, sintetiza a ambição de consolidar uma associação mais próxima dos seus membros, mais moderna nos seus processos e mais influente na defesa dos interesses empresariais.

    No manifesto eleitoral simplificado da Lista A, a visão apresentada aponta para uma ACB com quatro características centrais: referência nacional, digitalmente avançada, líder regional e geradora de oportunidades. Esta visão propõe uma associação empresarial mais inovadora e eficiente, capaz de utilizar a tecnologia para facilitar negócios, melhorar serviços, impulsionar a criação da Federação das Associações Económicas de Sofala (FAEPS) e multiplicar oportunidades entre os seus membros.

    Entre os pilares do programa destacam-se o apoio aos membros, a promoção do associativismo, o diálogo público-privado, o desenvolvimento de projectos, o estabelecimento de parcerias, a atracção de investimentos, a transformação digital e a inovação empresarial. A proposta inclui acções como capacitação empresarial, criação de núcleos sectoriais, realização de fóruns empresariais, fortalecimento de parcerias institucionais e financeiras, promoção de feiras, bolsas de contacto e missões empresariais dentro e fora do país.

    Um dos pontos mais marcantes do manifesto é a aposta na transformação digital e tecnológica da ACB. A proposta inclui a criação de uma plataforma digital ACB 4.0, com marketplace B2B, sistema de gestão de membros, observatório económico digital e base de dados de oportunidades. Trata-se de uma visão que procura adaptar a associação aos novos desafios do mercado, permitindo maior circulação de informação, identificação de oportunidades de negócio, acesso a concursos, programas de financiamento e comunicação mais eficiente com os associados.

    A criação da FAEPS surge também como um dos elementos estruturantes da visão apresentada. Sob a ideia de que “isoladas, somos vozes dispersas; unidas, somos uma força imparável”, a proposta defende a necessidade de fortalecer a representação empresarial provincial, ampliar o poder colectivo de negociação, promover compras conjuntas, reforçar a voz institucional de Sofala e aumentar a influência do sector privado nas políticas públicas e na atracção de investimentos.

    O compromisso assumido pela nova liderança assenta em três dimensões principais: transparência, resultados concretos e parcerias financeiras. Entre as medidas apresentadas constam relatórios periódicos, prestação de contas rigorosa, comunicação constante, metas mensuráveis, prazos definidos e entregas verificáveis. A proposta também prevê uma representação equilibrada de sectores e empresas de diferentes dimensões, com atenção especial às Pequenas e Médias Empresas, mulheres e jovens empresários.

    A equipa eleita integra diferentes sectores da economia local, sinalizando uma tentativa de representatividade empresarial mais ampla. Na presidência, Félix Jaime Machado, da Terra-mar Logística, Lda, assume a liderança, tendo como vice-presidentes Isabel Castro, da Escola Privada Longo Alcance, e José Sousa, da JD Sousa, Lda. A Assembleia Geral é presidida por Sicandar Esmail, da Mar Azul, Lda, com Miguel de Jenga, da Cornelder de Moçambique, SA, como vice-presidente, e Domingos Bonzula, da Kadoma Comercial, Lda, como secretário. O Conselho Fiscal e o Conselho Directivo integram igualmente empresários e representantes de diferentes áreas de actividade, reforçando o carácter plural da nova estrutura.

    Mais do que uma eleição interna, este processo representa um novo momento para a ACB e para o empresariado da Beira. Num contexto em que as empresas enfrentam desafios ligados ao financiamento, competitividade, digitalização, infra-estruturas, mercados e formalização, a associação é chamada a desempenhar um papel cada vez mais estratégico. A sua relevância dependerá da capacidade de transformar o manifesto em acções concretas, aproximar-se dos associados e consolidar-se como interlocutora forte perante o Estado, parceiros de cooperação, instituições financeiras e investidores.

    A unanimidade na reeleição de Félix Machado traduz não apenas confiança, mas também responsabilidade acrescida. O novo mandato será avaliado pela capacidade de materializar os compromissos assumidos, fortalecer a classe empresarial, dinamizar oportunidades e posicionar a ACB como uma instituição moderna, actuante e verdadeiramente representativa.

    Ao longo da sua história centenária, a Associação Comercial da Beira tem sido parte importante da memória económica da cidade e da região centro de Moçambique. O novo ciclo que agora se inicia coloca sobre a liderança eleita o desafio de honrar esse legado, mas também de preparar a instituição para o futuro. Uma ACB forte, representativa e inovadora será, inevitavelmente, uma ACB capaz de contribuir para uma Beira mais competitiva, uma Sofala mais dinâmica e um sector empresarial mais unido, preparado e influente.

  • Ser Empresário em Moçambique: Uma conversa com Salimo Abdula

    Ser Empresário em Moçambique: Uma conversa com Salimo Abdula

    “Procurem não correr atrás de muitos sonhos. Definam o vosso grande sonho e corram atrás dele, para não se perderem pelo caminho.”

    O conselho, directo e pragmático, é dirigido sobretudo à juventude que ambiciona entrar no mundo empresarial. Para Salimo Abdula, a dispersão é um dos principais inimigos do crescimento: quando o jovem persegue demasiadas metas em simultâneo, corre o risco de perder direcção, energia e consistência. O primeiro passo, defende, é identificar um grande objectivo, assumir o compromisso com esse propósito e avançar com disciplina.

    Natural de Quelimane, na província da Zambézia, Salimo Abdula viveu parte da infância na aldeia de Maruro, onde a língua predominante é o cisena. Filho de pai natural de Inhambane e mãe de Sofala, construiu um percurso que combina raízes diversas, experiência acumulada e uma ligação profunda ao país real. Fora da vida empresarial, define-se como homem de família e pai de três filhos. Há mais de 30 anos fixou-se em Maputo, onde consolidou a sua actividade empresarial e liderança institucional.

    Salimo sublinha que a formação que recebeu em casa foi determinante para o seu crescimento. Os pais, explica, não tinham grande capacidade financeira, mas transmitiram-lhe valores sólidos – ética, respeito, disciplina e sentido de responsabilidade. Esses princípios, afirma, continuam a ser o alicerce do seu desempenho e reputação.

    Para além do núcleo familiar, destaca igualmente a influência dos tios Carimo e Baiana, que o acolheram para que pudesse prosseguir os estudos, numa época em que a aldeia onde vivia não dispunha de escolas. Fez o ensino primário em Quelimane, estudou na Ilha de Moçambique após a transferência dos pais e, em Nampula, frequentou o Instituto Comercial. Mais tarde, passou pela Beira e por Maputo, sempre com o objectivo de continuar a formação.

    Na Cidade da Beira, concluiu o Instituto Comercial e foi afecto à Direcção Provincial de Comércio. Nos tempos livres, trabalhava numa empresa de engenharia, experiência que complementava a sua formação. Mas a ligação ao trabalho vem de muito cedo: aos 13 anos, em Quelimane, realizava actividades num bar para contribuir para a economia familiar.

    O seu percurso inclui também uma passagem marcante pelo desporto. Foi jogador de basquetebol no Palmeiras da Beira, conheceu Maputo em competições nacionais e, já na capital, jogou pelo Maxaquene, onde se sagrou campeão. A carreira desportiva terminaria mais tarde, mas a disciplina do desporto, como se percebe ao longo da entrevista, deixou marcas na forma como encara metas, compromisso e ética.

    Do abandono à liderança empresarial

    Em entrevista à Revista Negócios no Chiveve, Salimo Abdula descreve o percurso desde os primeiros passos até se tornar, nas suas palavras, um empresário “sustentável”. O início, porém, esteve longe de ser fácil. Entrou no mundo empresarial através da aquisição de uma empresa falida e abandonada, num contexto em que a legislação da época previa intervenção do Estado caso os proprietários deixassem uma empresa inactiva por mais de 90 dias.

    A empresa chamava-se Iluminate, dedicada à venda de material eléctrico e à execução de obras de engenharia electrotécnica – e já fazia parte do seu percurso como trabalhador na Beira.

    “Quando eu estava na Beira a estudar, fazia parte de uma empresa chamada Iluminate. Mais tarde, quando os proprietários abandonaram a empresa, fui contactado para saber se queria candidatar-me. Ninguém quis assumir porque a empresa estava abandonada. Foi assim que entrei para o mundo empresarial.”

    As dificuldades foram muitas, admite. Mas persistiu e, antes mesmo de completar 20 anos, já ocupava o cargo de presidente do Conselho de Administração da sua primeira empresa. Posteriormente, fundou a Eletrosul e, actualmente, é PCA da Intelec Holdings, grupo que integra a lista das principais holdings de Moçambique. Ao longo do percurso, exerceu funções de elevada responsabilidade em organizações participadas, incluindo a presidência do conselho de administração da Vodacom e a administração de instituições bancárias, como o Banco Único e o Banco ICB.

    O empresário recorda ainda a liderança associativa e cívica: foi Presidente da Direcção e Presidente da Mesa da Assembleia-Geral na CTA, e foi deputado na Assembleia da República na primeira Legislatura Multipartidária.

    Política, princípios e conflito de interesses

    Questionado sobre as razões que o levaram a abandonar a vida política, Salimo Abdula é claro: preferiu o caminho empresarial e evitou colocar-se em contextos de conflito de interesses. A ética, diz, é essencial numa economia que pretende crescer com credibilidade.

    “Evitar o conflito de interesses é muito importante. Muitas vezes somos jogadores e árbitros. Isso é perigoso. Temos problemas sérios quando há pessoas no sector político a tomar decisões sobre áreas empresariais onde estão envolvidas.”

    Explica que entrou para a política num momento de transição nacional, quando o país iniciava a experiência multipartidária e havia necessidade de incluir pessoas com experiência na economia real. No entanto, ao longo do mandato, percebeu que a ausência estava a fragilizar as empresas e que precisava de tomar uma decisão.

    “Verifiquei que as minhas empresas estavam em decadência. Ou continuava com a vida política, ou ficava numa situação difícil. A minha esposa teve de deixar a medicina para ajudar a empresa, porque eu estava muito ausente. No final do mandato, em 1999, decidi abandonar a política.”

    Depois disso, optou por contribuir para o país através da via associativa – uma forma de apoiar o desenvolvimento sem se ligar directamente ao jogo político.

    Para explicar a lógica de valores que defende, usa uma comparação com o futebol:

    “Quando abraço uma causa, visto aquela camisola e luto por ela. É como um jogador: enquanto está num clube, deve lutar por aquela camisola. Depois pode mudar, mas com ética e valores.”

    A CPLP e o desafio de uma agenda comum

    Actualmente, Salimo Abdula é Presidente da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP), uma estrutura que representa o patronato na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Conta que, inicialmente, a liderança era rotativa, mas, a partir de 2014, passou a ser eleita. Concorrendo com um empresário angolano, foi eleito com apoio significativo dos países membros, tendo sido depois reeleito.

    Quanto aos desafios, reconhece que são complexos: trata-se de harmonizar interesses e definir uma agenda comum para nove países com realidades distintas. O primeiro mandato foi, sobretudo, de reestruturação institucional e estabilização financeira. Hoje, o foco é criar valor dentro da comunidade, através de mobilidade, circulação de bens e capitais, e aproveitamento estratégico dos recursos existentes.

    Um dado sobressai: na visão do empresário, a CPLP é maioritariamente jovem e esse facto representa energia e potencial, desde que orientado para a criação de valor.

    “A comunidade tem uma população maioritariamente jovem. Isso é energia. Mas tem de ser trabalhada para gerar emprego, empresas e conhecimento tecnológico.”

    Aponta ainda sectores estruturantes para o futuro: agronegócio e energia, defendendo que a CPLP pode afirmar-se globalmente se actuar em conjunto, apesar das limitações impostas por agendas internas e dificuldades de execução coordenada.

    O que significa “sucesso” em Moçambique?

    A pergunta é inevitável: o que é ser um empresário de sucesso em Moçambique? Salimo Abdula começa por desconstruir a ideia de que sucesso se resume à riqueza acumulada, lembrando que, por vezes, se confunde “sucesso” com ganhos rápidos e pouco produtivos.

    “Há quem associe empresário de sucesso a quem ganha riqueza sem passar por um processo produtivo.”

    Para si, sucesso é equilíbrio: conseguir trabalhar, cumprir responsabilidades, sustentar a família, criar emprego, honrar compromissos e contribuir para a economia do país.

    “Se eu consigo trabalhar, pagar responsabilidades, sustentar a minha família, criar riqueza e emprego, honrar compromissos… isso é sucesso.”

    Sublinha ainda que o sucesso empresarial é geracional: não basta construir; é preciso transmitir valores e visão aos sucessores, para que não se tornem apenas herdeiros, mas continuadores de um legado.

    E deixa três pilares essenciais: Persistência; Consistência nos objectivos e Honestidade

    “Se conseguimos deitar-nos e dormir de consciência tranquila, sem dever, sem ter passado por cima de ninguém, isso é sucesso. Muitos acham que sucesso é ter muito dinheiro… eu conheço muita gente muito pobre que a única coisa que tem é dinheiro.”

    Lições, foco e sustentabilidade

    Salimo Abdula admite que aprendeu muito de forma empírica, com erros e reorientações. Uma das maiores lições foi manter o foco e não confundir receitas com lucros – uma recomendação directa aos jovens empreendedores. Defende ainda crescimento sustentável: o lucro não deve ser consumido integralmente; deve haver disciplina financeira e reinvestimento.

    Do ponto de vista macro, reconhece desafios estruturais que afectam o empresariado: paz, acesso a financiamento sustentável, tecnologia, e também logística, que considera onerosa e limitadora da competitividade interna.

    Outro factor de preocupação é a insegurança, com destaque para a tendência de aumento de sequestros, que afecta a estabilidade social e compromete a atracção de investimento.

    “Sem paz dificilmente progredimos. A paz é prioritária para todos.”

    Reconhecimento internacional e responsabilidade

    Em 2020, Salimo Abdula foi distinguido com um prémio internacional, o EuroKnowledge 2020, atribuído anteriormente a figuras empresariais de grande destaque. Para o empresário, a distinção representa prestígio pessoal, mas também responsabilidade colectiva: serve para demonstrar que Moçambique não é apenas um país de notícias negativas, e que existem referências com trabalho sério e reconhecimento internacional.

    “É uma enorme responsabilidade. Um prémio destes aumenta a exigência sobre nós e sobre a imagem do país.”

    Conclui reconhecendo que o prémio resulta de uma combinação de liderança, filantropia e princípios – e reafirma a ligação afectiva às suas origens, que continuam presentes na sua identidade e forma de actuar.

  • Fazendo Negócios na Cidade da Beira

    Fazendo Negócios na Cidade da Beira

    Uma conversa com Jorge Fernandes

    O mercado empresarial contemporâneo é cada vez mais competitivo e exigente. Num contexto em que os consumidores se tornaram mais informados e criteriosos, prestar um serviço de excelência e responder eficazmente às necessidades dos utentes deixou de ser uma opção para se tornar uma exigência estratégica de qualquer ecossistema empresarial que pretenda contribuir para o crescimento económico local e nacional.

    Nos últimos anos, tem-se assistido, em todo o país, a uma preocupação crescente com a qualidade dos serviços prestados por empresas, associações e empreendedores. Neste contexto, a avaliação de desempenho assume um papel central na promoção da eficiência, da eficácia e da sustentabilidade dos processos empresariais, influenciando directamente a robustez do ecossistema empresarial.

    Foi com este enquadramento que a Revista Negócios no Chiveve (Beira Connect) teve a honra de conversar com o empresário Jorge Augusto Fernandes, amplamente conhecido no meio empresarial como Jorge Fernandes, uma referência incontornável no sector, com mais de três décadas de experiência no mundo dos negócios. Actualmente, exerce funções como Presidente da Associação Comercial da Beira (ACB) desde Agosto de 2017, acumulando este cargo com a sua actividade empresarial na área de serviços.

    Segundo o próprio, o percurso empresarial nem sempre resulta de uma escolha previamente planeada:

    “Muitas vezes estudamos com a intenção de nos tornarmos empregados ou funcionários. Raramente estudamos para ser empresários, porque ser empresário não é uma profissão que se aprende no banco da escola. É, muitas vezes, resultado de circunstâncias da vida que nos empurram, incentivam ou obrigam a entrar no mundo dos negócios. A vida, por vezes, surpreende-nos.”

    Ao analisar o ecossistema empresarial da cidade da Beira, Jorge Fernandes destaca a flexibilidade e a capacidade de adaptação como factores determinantes para o seu crescimento. Esta realidade aplica-se tanto ao sector público, cuja missão é a prestação de serviços essenciais, como ao sector privado, às organizações sem fins lucrativos e às iniciativas empresariais orientadas por causas sociais.

    De acordo com o Presidente da ACB, qualquer análise séria do tecido empresarial local deve começar pela compreensão das características estruturais da cidade da Beira.

    “A Beira é, essencialmente, uma cidade de serviços. Cerca de 80% da sua dinâmica económica assenta neste sector, sendo o comércio e a indústria actividades complementares. A localização estratégica da cidade, como plataforma logística que serve a região centro e norte do país e os países do interland – Malawi, Zâmbia, Zimbabwe e Botswana – confere ao Porto da Beira um papel central. O porto é o coração que sustenta um vasto conjunto de serviços à sua volta.”

    Para além do sector dos serviços, a cidade apresenta um tecido empresarial diversificado, composto por pequenos e médios negócios – farmácias, lojas de produtos alimentares, talhos, sapatarias e outros serviços – cada um com regras próprias e desafios específicos. Esta diversidade torna a análise do ecossistema empresarial particularmente complexa, não só pela multiplicidade de agentes económicos envolvidos, mas também pela dificuldade de conciliar interesses distintos.

    Outro aspecto relevante prende-se com as dificuldades enfrentadas pelos empresários. Segundo Jorge Fernandes, os empresários surgem em resposta a necessidades concretas e em contextos históricos distintos, o que explica as assimetrias existentes entre negócios mais antigos e iniciativas mais recentes. Ainda assim, considera que, de forma geral, as oportunidades têm sido favoráveis, uma vez que a maioria das empresas que subsiste no mercado o faz porque consegue cobrir os custos operacionais e gerar algum lucro para reinvestimento.

    Contudo, o empresário é claro ao afirmar que fazer negócios nunca é fácil.

    “Não existe um processo linear ou simples. O sucesso empresarial não depende da sorte. A sorte não é um factor determinante nos negócios. O negócio é resultado de planeamento, orientação estratégica e capacidade de decisão.”

    Num contexto económico marcado pela desvalorização da moeda, aumento do custo de vida e alterações profundas no mercado, Jorge Fernandes sublinha a importância da adaptação à mudança. As crises, embora difíceis, também criam oportunidades para inovação e reinvenção.

    “Quando uma estrada se fecha, temos de encontrar caminhos alternativos para chegar ao destino. O empresário não pode continuar a fazer negócios da mesma forma em tempos de crise.”

    Neste processo, a previsão e o planeamento tornam-se fundamentais. Antecipar cenários, preparar-se para contextos favoráveis ou adversos e investir em informação são práticas essenciais. Felizmente, existem hoje múltiplas ferramentas ao dispor dos empresários, desde o acesso à informação digital até às acções promovidas por associações empresariais, como seminários, formações e programas de capacitação.

    Na visão do Presidente da ACB, existem três condições fundamentais para o sucesso do ecossistema empresarial na Beira:

    1. Um ambiente regulatório favorável, criado pelo Estado, que facilite a actividade empresarial;

    2. Infra-estruturas adequadas, como energia, água e vias de acesso, essenciais ao desenvolvimento económico;

    3. Organização e cooperação empresarial, promovidas pelas associações, permitindo a definição de estratégias conjuntas e o fortalecimento do sector.

    A experiência da província de Sofala, particularmente no sector dos transportes, demonstra como condições estruturais adequadas podem gerar oportunidades de negócio sustentáveis. Contudo, persistem desafios significativos, como o elevado custo do crédito bancário, que continua a ser um entrave ao financiamento empresarial, especialmente para pequenos e médios negócios.

    É neste contexto que a ACB tem desempenhado um papel activo, apostando na formação profissional, no fortalecimento das associações e na organização do sector informal, com vista ao alargamento da base tributária e à inclusão económica. Destaca-se ainda a criação recente de uma agência de emprego, articulando formação e colocação profissional, numa resposta directa às dificuldades enfrentadas pela juventude no acesso ao mercado de trabalho.

    Olhando para o futuro, Jorge Fernandes demonstra optimismo. Projectos ligados à exploração de gás, aos recursos agrícolas, mineiros, faunísticos e ao turismo – com destaque para o Parque Nacional da Gorongosa – colocam Sofala numa posição estratégica para um crescimento sustentado nos próximos anos.

    Por fim, deixa uma mensagem clara à juventude:

    “O foco hoje deve ser nos jovens. Com ousadia, organização e trabalho, é possível construir um percurso empresarial sólido. Não contem com a sorte. No mundo dos negócios, o caminho é trabalhar, aprender com os erros e persistir.”

    Assim terminou a conversa com Jorge Fernandes, num momento em que o ecossistema empresarial da cidade da Beira enfrenta desafios significativos, mas também oportunidades concretas de transformação. A análise reforça a necessidade de aprimorar o ambiente regulatório, reduzir a burocracia e criar condições mais favoráveis para que as empresas alcancem melhores níveis de desempenho e sustentabilidade.