Autor: Franco David

  • Do Bairro Central para o Mundo

    Do Bairro Central para o Mundo

    Dário Camal fala do seu percurso associativo e influência para mudanças a nível internacional

    A vontade de fazer alguma coisa pelo bem-estar dos outros em momentos difíceis e transformar vidas é uma tarefa nobre. Foi desta necessidade de ajudar os outros que o nosso entrevistado do mês começou a trilhar seus passos em um mundo associativo e, actualmente, é um jovem de tamanha influência política e social a nível nacional e internacional. Dário Abdula Camal é a nossa figura em destaque e, nesta entrevista, fala do seu envolvimento em movimentos sociais, do seu contributo, dos seus sonhos e ambições e da estratégia de desenvolvimento socioeconómico do país.

    Dário Camal nasceu no bairro Central na capital do país, Moçambique, e actualmente é jovem panafricanista, membro do primeiro e histórico Conselho da Juventude da Comissão da União Africana e enviado especial para a juventude africana apontado pelo Presidente da Comissão da União Africana para um mandato de 2 anos.

    Entretanto, Camal tornou-se o mais jovem diplomata da história da Comissão da União Africana nos órgãos de decisão (Gabinete do Presidente da Comissão da UA), servindo e advogando os interesses da juventude africana (Carta Africana e Agenda 2063).

    O mesmo faz parte de diversas plataformas internacionais importantes, como a Comissão Africana para o Desenvolvimento da Juventude (AYDEC), onde é Secretário-geral Continental e Representante de Moçambique. Foi ainda apontado pela realeza britânica para um mandato de 2 anos como presidente do Comité no Conselho da Juventude da Commonwealth (CYC), plataforma que engloba 1,3 bilhões de jovens.

    O percurso do entrevistado da Revista de Negócios no Chiveve é longo, a fonte é ainda membro representante de Moçambique no Fórum da Cooperação da Juventude Islâmica em Istambul na Turquia (ICYF), membro da direção do fórum da Juventude Afro-árabe em Kartum no Sudão, antigo presidente e primeiro africano presidente da ISA (International Students Association Worldwide) de 2017-2020), maior plataforma de jovens académicos do mundo), É também representante de África na Agência Juventude dos BRICS para Energia (Oil and Gas).

    Na Revista de Negócios no Chiveve, o entrevistado revelou que iniciou a sua carreira como activista social em 2006 quando o Paiol de Malhazine explodiu. A fonte diz que na altura acompanhou a explosão a partir da cidade, onde se encontrava a trabalhar, e que não imaginava a gravidade da situação até acompanhar os estragos pela televisão. Daí que depois de ver os estragos, Dário Camal juntou-se a alguns amigos seus para criar uma corrente de ajuda às vítimas.

    “Quando cheguei a casa e vi na televisão, senti que tínhamos de fazer alguma coisa; aqui foi chocante. Felizmente, tinha amigos que pensavam como eu, que não éramos só amigos da juventude, e pensamos em fazer alguma coisa. Então foi por aí que ganhei aquela paixão porque nós nos unimos para mudar vidas e ajudar pessoas. Recolhemos comida e outros produtos básicos porque muitas das vítimas que haviam sido afectadas estavam em casa, e as próprias casas de outras estavam destruídas. Daquele movimento de amigos que para nós também era um divertimento comecei a ganhar aquela paixão e daí nunca mais parei”, revelou a fonte.

    Soube a nossa equipe de reportagem que as actividades sociais desenvolvidas por Dario Camal foram aumentando e abrangendo outros beneficiários a nível nacional e internacional. A fonte conta-nos que tem desenvolvido as mesmas actividades a nível internacional em países como Etiópia, Serra Leoa, Djibuti, Rússia e Estados Unidos da América, entre outros pelo mundo fora.

    Recuando mais um pouco para o início antes de viajar pelo mundo, o entrevistado conta que a UNICEF e a Cruz Vermelha formaram os primeiros movimentos mais organizados dos quais o mesmo fez parte como activista voluntário em 2007. No ano seguinte, o mesmo juntou-se à Organização da Juventude Moçambicana (OJM). Dário avançou que a educação que teve em casa o ajudou bastante a ser o que é hoje. Ele diz que os seus avós foram sua grande inspiração devido à sua forma de ser, carácter e personalidade de querer sempre ajudar os outros.

    “Os meus avós eram pessoas que estavam sempre dispostas a ajudar mesmo que fosse para sacrificar um pouco deles. E eu cresci sempre a ver sempre estas acções de pessoas solidárias, de pessoas que se importavam e queriam o bem dos outros. Então esses gestos de meus avós eram bons e demonstravam que a gente poderia ser grande; às vezes não precisamos ganhar sempre dinheiro. Às vezes nem precisamos de fazer coisas muito grandes, coisas pequenas, pequenos gestos como ajudar seu vizinho, entre outras coisas, saber compartilhar”, disse a fonte.

    Além de casa, a fonte revela que aprendeu a compartilhar também na escola onde estudava. “Até na escola cresci a ver pessoas que sempre se ajudavam e que queriam mais dar um pouco. Algumas delas eram financeiramente superiores aos outros, mas não se sentia isso quando nos sentávamos à mesa. Havia harmonia e equilíbrio total, e na minha família sempre foi assim também. Sempre vivemos em um espírito de união e isso fez toda a diferença e marca toda a diferença em uma história de vida”, realçou o entrevistado.

    Actualmente, Dário Camal tornou-se um líder juvenil de sucesso a nível nacional e internacional naquilo que faz. Este segredou-nos que o segredo do sucesso reside na resiliência, no foco e na determinação no trabalho. A fonte defende que é preciso ter bastante foco e crença naquilo que fazemos para alcançar bons resultados desejados. 

    “Sucesso é relativo. Para mim, sucesso é ver os outros bem e felizes, a prosperarem ou ver os outros a trilharem seu caminho, a evoluírem. Ajudar o próximo sem olhar a quem, isso para mim é sucesso. Eu trilhei esse caminho porque quero deixar um legado, quero transformar vidas. Quero deixar meu contributo, no final, quero que as pessoas se lembrem de mim por tudo que tentei fazer para ajudar a humanidade, em factores e sectores de actuação”, disse Dário.

    O mesmo vai longe explicando que espera que o mundo se lembre dele como alguém que batalhou bastante para o bem-estar dos outros. “Eu não vim de uma família rica ou bastarda; tive uma infância extremamente normal como uma criança normal do bairro central. Cresci lá perto do ponto final e de lá para o mundo, e para mim sucesso não tem muito a ver comigo, mas com aquilo que conseguimos incutir nas pessoas. Na quantidade que se inspira em nós, a quantidade de pessoas que seguem aquilo que dizemos. Dário não é uma pessoa perfeita; tem falhas, mas é uma pessoa batalhadora, sonhadora e que acredita”, acrescentou.

    A fonte afirma ainda que para aqueles que buscam realizar-se, não basta apenas sonhar. É que só sonhar é um manifesto curto e insuficiente para aquilo que queremos fazer. O mesmo defende ainda que se deve fazer mais do que se sonha, se deve batalhar e seguir os sonhos e que não há outra forma de ganhar na vida a não ser essa.

    “Eu tento fazer o que é possível fazer dentro de uma sociedade, no contexto onde vive e em circunstâncias em que vive. E a melhor coisa a se fazer é batalhar sempre e tentar honrar os meus avós. Penso muitas vezes neles e naquilo que fariam ou me diriam para fazer. Tento sempre buscar entre a razão, o que é certo, o que é errado; tento sempre buscar esse equilíbrio mental”, disse.   

    Entretanto, actualmente o nosso entrevistado faz parte de grandes organizações nacionais e internacionais. A Revista de Negócios no Chiveve quis saber do nível de contributo destas organizações no desenvolvimento de Moçambique. Apesar do país ainda não estar a aproveitar como deve ser as oportunidades, a fonte diz que os ganhos são enormes e já se começam a ver mudanças significativas em termos de influência política e socioeconómica.

    “Muitas destas organizações têm poder e uma capacidade financeira que deve ser diplomaticamente muito bem explorada e estruturada. Organizações como a União Africana, por exemplo, podem ter um papel de relevo na situação actual de Cabo Delgado. Organizações como a SADC, onde também sou líder agora, podem ter um papel muito relevante sobre a situação socioeconómica e juvenil, mesmo em nível de empregabilidade a nível da região”, explica a fonte.  

    Entretanto, Dário Camal diz ainda que este contributo só é possível se o governo tiver um interesse ou estiver preparado para fazer essa conexão. Defendendo que é preciso fazer um acompanhamento porque quanto mais essas organizações são, mais burocráticas são.

    “Mas uma vantagem é muito boa fazer parte. Primeiro, porque é a nossa imagem e bandeira que está lá; segundo, nós temos que levar a imagem positiva do nosso país para esses lugares. E depois, obviamente, politicamente, manter um poder de influência para se decidir em nosso favor. Cada país que vai lá representa um pouco da juventude da sua nação, e apesar de termos algumas dessas organizações connosco, acho que ainda falta um nível de maior interação porque há muitos ganhos em termos de conhecimento, abertura de oportunidades para a juventude”, disse a fonte.    

    Camal diz ainda que Moçambique ainda “é um país que se comporta como ilha” e está isolado daquilo que pode ser o foco dessas organizações. Por outro lado, a fonte diz que é um orgulho para essas organizações ter lá um moçambicano devido ao seu nível de influência dentro delas.

     “Quando vês jovens de outros países, por exemplo, do Canadá, a entrar em contacto com um moçambicano dentro da organização, consegues ver o nível de influência que esse moçambicano tem. E isso enche-me de orgulho e de prudência porque é um momento de fazermos o nosso lobby para influenciar aquilo que queremos a nosso favor como nação, não descurando as relações diplomáticas, a agenda colectiva internacional e os compromissos que a juventude tem dentro dessas organizações”, explica o jovem.  

    Ainda na onda do contributo destas organizações sociais para o país, a fonte mencionou que na União Africana, um dos contributos é a “Carta da Juventude Africana”, que é o maior instrumento jurídico da história da juventude africana. De acordo com o entrevistado, se este instrumento for bem explorado, obrigará o governo a criar políticas específicas para a juventude, pois o governo moçambicano assinou e ratificou esta carta.

    “Este documento tem poder, e a nossa missão é levar o mesmo para o conhecimento dos jovens para que eles saibam quais são seus direitos e deveres. Isso é só mais um de tantos exemplos das organizações de que faço parte e do real poder que elas têm sobre nós. Não é só o poder socioeconómico, é também político e diplomático e, mesmo de cooperação e expansão daquilo que é a marca Moçambique enquanto nação”, acrescentou a fonte. 

    Em termos de aproveitamento das oportunidades como nação, Dário Camal afirma que não estão sendo exploradas como deveriam. “Se olharmos como moçambicanos, na minha pessoa em termos de representatividade, digamos que há um bom aproveitamento”, conta a fonte.

    O mesmo vai mais além explicando que, “Se forem a visitar o meu website na parte de oportunidades, irão perceber que muitas das oportunidades tenho sempre partilhado. Tenho estado a colocar muitos jovens em programas de treinamento a nível internacional, onde os jovens líderes nacionais vão se juntar a outros líderes. Já estou a fazer isso com nosso próprio auto financiamento, e isso é bonito porque é a juventude a fazer as coisas acontecerem”, disse.

    A fonte aponta ainda a situação de Cabo Delgado, onde diz que se denunciou a nível internacional, e que a juventude fez o seu trabalho a nível internacional para esta situação. Actualmente, a juventude continua dando seu contributo, buscando parceiros que ajudem a encontrar soluções sem violar o poder enquanto país.

    “E isso é importante para nós porque Moçambique é um país independente, mas não pode se comportar como uma ilha; nós precisamos uns dos outros em nível de cooperação; há muitos ganhos que podemos tirar de outros países e há ganhos que outros podem tirar connosco. Mas falta uma maior colaboração ou interação entre o próprio governo de Moçambique relativamente a isso e a forma como nós olhamos de verdade a juventude, não marginalizando a juventude”, disse Camal. 

    Na Revista de Negócios, o entrevistado deixou um conselho aos jovens moçambicanos. Este afirma que os jovens nunca devem desistir, trabalhar mais e tentar sempre ser perfeccionistas. “Trabalhar mais e tentar melhorar em termos de empregabilidade. Formarem-se, manterem um foco e uma determinação na vida: isso é mais importante na vida. Portanto, não abdicarem e não venderem seus morais, cívicos, éticos e de cidadania. É muito importante ser um bom profissional quando nós estamos organizados mentalmente; independentemente das dificuldades, nós alcançamos as nossas metas”, avançou a fonte.

    Importa realçar que, Dário Camal conta com dois livros seus recém-lançados em Maputo. De acordo com o mesmo, trata-se de duas obras e um propósito. Conta que os livros foram produzidos com o intuito de arrecadar fundos para apoiar as famílias vítimas de ataques em Cabo Delgado. “Fizemos os livros com o intuito de ter um produto que as pessoas pudessem comprar e, ao mesmo tempo, se deliciarem com a leitura, aumentando a nossa cultura em termos de conhecimento e, ao mesmo tempo, ajudar Cabo Delgado; é uma bala para matar dois coelhos”, disse a fonte.      

    Entretanto, um dos livros, intitulado “Amor Incondicional”, é um romance que retrata uma história que se desenrola em Cabo Delgado. Enquanto a outra obra, é intitulada “Forma secreta do Sucesso”, segundo o autor é uma visão para a juventude. “É um livro para inspirar a juventude; é um livro para ajudar jovens moçambicanos como eu que tiveram dificuldades como eu, mas que podem vencer. Também é uma autobiografia, minha história de vida, e mostra o caminho que eu tive que percorrer para chegar onde cheguei”, disse o autor.

    As duas obras foram lançadas no início do mês de Abril. Trata-se de uma produção nacional em que esteve envolvida na produção apenas uma equipe jovem. Os parceiros também foram empresas lideradas por jovens, e este envolvimento massivo e completo de jovens apenas, segundo a fonte, era uma forma de mostrar que a juventude é capaz de resolver seus problemas.  

    De destacar que, Dário Camal conta com vários prémios a nível Internacionais e destaque tais como, LYONS Mahatma Gandhi Award 2020, Bangladesh Global Youth Awards 2020, Pan African Youth Foundation 2020, 100 Most Influent Young Leader, 100 Most influential Young Leaders 2018 under 35 years according with UK Government, MIPAD Most influent Person African Descend 2019 according to United Nations. African Young Achiever of the Years 2018/2019, Afro-Arab Young Leader of the Year 2018. Afro-Arab Young Leader of The Year 2019, Qatar Youth Awards 2019, Pan African Youth Achieve of the Yeard 2018/2019, Sustainable Development Goals Awards 2016/2017/2018/2019, Red Diplom for best student abroad 2015, 2019 Ten Young African Changemakers by YouthhubAfrica, 2018 List of Formidable Man Leading Change, 2017 Young Talent Of The Year By UNLEASH e 2016 Listed in 100 under 40 Most Influential Afro-Arabs in the world.

    Entretanto, o lado empreendedor de Dário é também notório. Aos 19 anos e com meios próprios adquiridos do seu trabalho na Banca, fundou o Grupo de Investimentos DCI, e os ramificou em diversas áreas, gerando dentro do grupo 5 outras empresas com serviços na área de consultorias, finanças, entretenimento, importações e aluguer de veículos de luxo, área de construção e imobiliária, gráfica, produtos e insumos agrícolas e maquinaria, e aos 22 anos estendeu e internacionalizou o seu negócio ainda como estudante para a África do Sul, Sudão, Tunísia, EAU, Rússia, Turquia, França, Itália, Estados Unidos e Reino Unido.

  • Delfina de Nogueira: Visão e Liderança no Sector da Educação na Cidade da Beira

    Delfina de Nogueira: Visão e Liderança no Sector da Educação na Cidade da Beira

    No contexto das transformações sociais e económicas que marcam o país, a educação assume-se como um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento sustentável. É neste cenário que se destaca o percurso de Delfina Nogueira, empreendedora e fundadora da Escola Primária Palmo e Meio, uma iniciativa que alia qualidade pedagógica, formação humana e compromisso com o futuro das crianças da Cidade da Beira.

    Natural da Beira, Delfina Nogueira é filha de uma mãe sofalense e de um pai zambeziano. É licenciada em Ensino de História pela Universidade Pedagógica e exerce actualmente as funções de Directora da Escola Primária Palmo e Meio. A sua ligação ao sector da educação iniciou-se há cerca de cinco anos, no ensino pré-escolar, tendo em 2018 expandido o projecto para o ensino primário, abrangendo da 1.ª à 5.ª classe.

    A opção pela educação resulta, em primeiro lugar, da sua identidade profissional enquanto professora e da afinidade natural com o trabalho com crianças. Ao longo da sua trajectória profissional, acumulou experiências em áreas como administração, logística e finanças, tendo igualmente gerido um centro de formação profissional com doze departamentos de ensino, que iam desde a construção civil e mecânica até à educação de infância e culinária. Este percurso diversificado dotou-a de competências técnicas e de gestão que lhe permitiram criar a sua própria iniciativa empresarial, alinhando vocação, experiência e visão estratégica.

    Apesar da formação em História, Delfina considera que esta área teve um papel determinante na forma como encara o empreendedorismo. A História, afirma, amplia horizontes, desenvolve pensamento crítico e permite compreender o mundo para além da experiência imediata. Essa capacidade de leitura contextual contribuiu para encarar a criação da escola com optimismo, responsabilidade e sentido de missão.

    O quotidiano enquanto empreendedora é marcado por desafios constantes, comuns a qualquer gestor. No entanto, Delfina adopta como princípio orientador a persistência e a resiliência. Defende uma liderança participativa, baseada na partilha de responsabilidades, desafios e conquistas com a equipa. Não se vê como chefe, mas como líder, acreditando que a gestão se torna mais eficaz quando todos se sentem parte integrante do projecto.

    Esta abordagem reflecte-se na relação próxima com os colaboradores, assente em confiança, respeito e sentido de pertença. Para Delfina, a gestão eficaz não depende de fórmulas complexas, mas sim de trabalho consistente, responsabilidade, honestidade, simplicidade e humildade — valores que considera essenciais para a sustentabilidade de qualquer organização.

    No plano familiar e social, mantém a mesma simplicidade que sempre a caracterizou. O que mudou, reconhece, foram as responsabilidades acrescidas. O facto de ter familiares igualmente envolvidos em actividades empreendedoras facilita o diálogo, a partilha de experiências e a reflexão conjunta sobre inovação, gestão e crescimento.

    Gerir uma escola primária implica uma responsabilidade particular, por se tratar da formação das gerações futuras. Delfina admite que não é um desafio simples, mas sublinha a importância de uma equipa qualificada e do gosto genuíno pelo trabalho com crianças, factores que tornam o processo mais equilibrado e gratificante.

    Relativamente ao posicionamento da Escola Primária Palmo e Meio, Delfina não se coloca numa lógica de comparação, mas assume um compromisso claro com a qualidade do serviço educativo e com a formação integral da criança. Para si, a educação deve ir além do domínio técnico e académico, incorporando valores humanos universais como respeito, honestidade, tolerância e responsabilidade. Num contexto em que a sociedade tende a privilegiar competências técnicas em detrimento da ética, a escola procura formar crianças preparadas não apenas para o sucesso académico, mas para a vida em sociedade.

    Quanto ao papel da mulher no mundo dos negócios, Delfina manifesta uma visão positiva e confiante. Observa um número crescente de mulheres empreendedoras na Beira e em todo o país e rejeita a ideia de limitações baseadas no género. Defende que a presença feminina na gestão acrescenta valor às organizações, pela visão global, sensibilidade social e capacidade multifacetada que muitas mulheres desenvolvem ao longo da vida.

    Para Delfina Nogueira, a chave do sucesso assenta em três pilares fundamentais: trabalho, responsabilidade e humildade. Olhando para o futuro, define como meta que, num horizonte de cinco anos, a Escola Primária Palmo e Meio seja reconhecida a nível provincial como uma referência em educação de qualidade, contribuindo para o resgate de valores humanos e para o desenvolvimento cognitivo e social das crianças que por ela passam.

    Às mulheres que desejam iniciar-se no mundo dos negócios, deixo uma mensagem clara: não desistam dos seus sonhos. Segundo Delfina, não é necessário dispor de grandes recursos financeiros para começar; é possível iniciar com pouco, desde que existam foco, persistência e determinação. Num país com amplo espaço para empreender, acredita que a força e a resiliência da mulher moçambicana continuam a ser motores essenciais de transformação.

    Assim se apresenta o percurso de Delfina Nogueira, uma mulher que demonstra que empreender não é uma questão de dimensão, mas de propósito, impacto e legado.

  • Fazendo Negócios na Cidade da Beira

    Fazendo Negócios na Cidade da Beira

    Uma conversa com Jorge Fernandes

    O mercado empresarial contemporâneo é cada vez mais competitivo e exigente. Num contexto em que os consumidores se tornaram mais informados e criteriosos, prestar um serviço de excelência e responder eficazmente às necessidades dos utentes deixou de ser uma opção para se tornar uma exigência estratégica de qualquer ecossistema empresarial que pretenda contribuir para o crescimento económico local e nacional.

    Nos últimos anos, tem-se assistido, em todo o país, a uma preocupação crescente com a qualidade dos serviços prestados por empresas, associações e empreendedores. Neste contexto, a avaliação de desempenho assume um papel central na promoção da eficiência, da eficácia e da sustentabilidade dos processos empresariais, influenciando directamente a robustez do ecossistema empresarial.

    Foi com este enquadramento que a Revista Negócios no Chiveve (Beira Connect) teve a honra de conversar com o empresário Jorge Augusto Fernandes, amplamente conhecido no meio empresarial como Jorge Fernandes, uma referência incontornável no sector, com mais de três décadas de experiência no mundo dos negócios. Actualmente, exerce funções como Presidente da Associação Comercial da Beira (ACB) desde Agosto de 2017, acumulando este cargo com a sua actividade empresarial na área de serviços.

    Segundo o próprio, o percurso empresarial nem sempre resulta de uma escolha previamente planeada:

    “Muitas vezes estudamos com a intenção de nos tornarmos empregados ou funcionários. Raramente estudamos para ser empresários, porque ser empresário não é uma profissão que se aprende no banco da escola. É, muitas vezes, resultado de circunstâncias da vida que nos empurram, incentivam ou obrigam a entrar no mundo dos negócios. A vida, por vezes, surpreende-nos.”

    Ao analisar o ecossistema empresarial da cidade da Beira, Jorge Fernandes destaca a flexibilidade e a capacidade de adaptação como factores determinantes para o seu crescimento. Esta realidade aplica-se tanto ao sector público, cuja missão é a prestação de serviços essenciais, como ao sector privado, às organizações sem fins lucrativos e às iniciativas empresariais orientadas por causas sociais.

    De acordo com o Presidente da ACB, qualquer análise séria do tecido empresarial local deve começar pela compreensão das características estruturais da cidade da Beira.

    “A Beira é, essencialmente, uma cidade de serviços. Cerca de 80% da sua dinâmica económica assenta neste sector, sendo o comércio e a indústria actividades complementares. A localização estratégica da cidade, como plataforma logística que serve a região centro e norte do país e os países do interland – Malawi, Zâmbia, Zimbabwe e Botswana – confere ao Porto da Beira um papel central. O porto é o coração que sustenta um vasto conjunto de serviços à sua volta.”

    Para além do sector dos serviços, a cidade apresenta um tecido empresarial diversificado, composto por pequenos e médios negócios – farmácias, lojas de produtos alimentares, talhos, sapatarias e outros serviços – cada um com regras próprias e desafios específicos. Esta diversidade torna a análise do ecossistema empresarial particularmente complexa, não só pela multiplicidade de agentes económicos envolvidos, mas também pela dificuldade de conciliar interesses distintos.

    Outro aspecto relevante prende-se com as dificuldades enfrentadas pelos empresários. Segundo Jorge Fernandes, os empresários surgem em resposta a necessidades concretas e em contextos históricos distintos, o que explica as assimetrias existentes entre negócios mais antigos e iniciativas mais recentes. Ainda assim, considera que, de forma geral, as oportunidades têm sido favoráveis, uma vez que a maioria das empresas que subsiste no mercado o faz porque consegue cobrir os custos operacionais e gerar algum lucro para reinvestimento.

    Contudo, o empresário é claro ao afirmar que fazer negócios nunca é fácil.

    “Não existe um processo linear ou simples. O sucesso empresarial não depende da sorte. A sorte não é um factor determinante nos negócios. O negócio é resultado de planeamento, orientação estratégica e capacidade de decisão.”

    Num contexto económico marcado pela desvalorização da moeda, aumento do custo de vida e alterações profundas no mercado, Jorge Fernandes sublinha a importância da adaptação à mudança. As crises, embora difíceis, também criam oportunidades para inovação e reinvenção.

    “Quando uma estrada se fecha, temos de encontrar caminhos alternativos para chegar ao destino. O empresário não pode continuar a fazer negócios da mesma forma em tempos de crise.”

    Neste processo, a previsão e o planeamento tornam-se fundamentais. Antecipar cenários, preparar-se para contextos favoráveis ou adversos e investir em informação são práticas essenciais. Felizmente, existem hoje múltiplas ferramentas ao dispor dos empresários, desde o acesso à informação digital até às acções promovidas por associações empresariais, como seminários, formações e programas de capacitação.

    Na visão do Presidente da ACB, existem três condições fundamentais para o sucesso do ecossistema empresarial na Beira:

    1. Um ambiente regulatório favorável, criado pelo Estado, que facilite a actividade empresarial;

    2. Infra-estruturas adequadas, como energia, água e vias de acesso, essenciais ao desenvolvimento económico;

    3. Organização e cooperação empresarial, promovidas pelas associações, permitindo a definição de estratégias conjuntas e o fortalecimento do sector.

    A experiência da província de Sofala, particularmente no sector dos transportes, demonstra como condições estruturais adequadas podem gerar oportunidades de negócio sustentáveis. Contudo, persistem desafios significativos, como o elevado custo do crédito bancário, que continua a ser um entrave ao financiamento empresarial, especialmente para pequenos e médios negócios.

    É neste contexto que a ACB tem desempenhado um papel activo, apostando na formação profissional, no fortalecimento das associações e na organização do sector informal, com vista ao alargamento da base tributária e à inclusão económica. Destaca-se ainda a criação recente de uma agência de emprego, articulando formação e colocação profissional, numa resposta directa às dificuldades enfrentadas pela juventude no acesso ao mercado de trabalho.

    Olhando para o futuro, Jorge Fernandes demonstra optimismo. Projectos ligados à exploração de gás, aos recursos agrícolas, mineiros, faunísticos e ao turismo – com destaque para o Parque Nacional da Gorongosa – colocam Sofala numa posição estratégica para um crescimento sustentado nos próximos anos.

    Por fim, deixa uma mensagem clara à juventude:

    “O foco hoje deve ser nos jovens. Com ousadia, organização e trabalho, é possível construir um percurso empresarial sólido. Não contem com a sorte. No mundo dos negócios, o caminho é trabalhar, aprender com os erros e persistir.”

    Assim terminou a conversa com Jorge Fernandes, num momento em que o ecossistema empresarial da cidade da Beira enfrenta desafios significativos, mas também oportunidades concretas de transformação. A análise reforça a necessidade de aprimorar o ambiente regulatório, reduzir a burocracia e criar condições mais favoráveis para que as empresas alcancem melhores níveis de desempenho e sustentabilidade.