DESTAQUE O CRESCIMENTO ECONÓMICO ANALISANDO NA CIDADE DA BEIRA Com Prof. Dr. Luís Quepe
Entender os condicionantes do crescimento econômico de um país, ou mesmo de uma região específica, é algo que intriga os economistas há muito tempo. E para apresentar uma análise, a mais exaustiva possível, da situação económica da cidade da Beira, a equipe do Beira Connect teve a oportunidade de conversar com o PhD. Luís Quepe, docente de economia na Universidade Católica de Moçambique. Na sua análise, ao olhar para a economia local nos dias de hoje, fazendo uma comparação com a economia concebida outrora, é fundamental fazer antes um rescaldo daquilo que é a cidade da Beira sob ponto de vista geográfico, pois ao norte da cidade da Beira temos a cidade do Dondo, ao sul o oceano Índico, a este cidade do Dondo e Oceano Indico, e a Oeste a Vila do Búzi. Então esta é que é a realidade da cidade da Beira geograficamente, é uma cidade que tem cerca de 65000 habitantes, onde 53% são mulheres e 47% são homens. A maioria da população vive em casas de pau picado, coberto de chapas de zinco, bens duráveis que elas possuem, são necessariamente um rádio e um televisor. Olhando para esse cenário podemos começar a imaginar como encontra-se a nossa economia local, porque uma parte considerável da população considera um Radio e um Televisor um bem durável, e elas vivem pela utilização do precioso líquido, a água canalizada fora da rede. E também podemos olhar o Porto da Beira como a origem principal da cidade da Beira, Porto esse que devia ser um fator dinamizador de suporte do crescimento econômico local. Porque se analisarmos as diretrizes da economia atual, é fundamental chamar um conceito preponderante que é o custo de vida das famílias, pois actualmente se assiste um cenário em que o custo de vida das famílias tem tendências de agravar-se cada vez mais, porque assiste-se anualmente ou mesmo diariamente, a uma subida generalizada do nível dos preços, a dita inflação, e isso cria um desconforto muito grande no seio das famílias, assumindo que seus rendimentos são constantes. E também podemos olhar para um indicador muito fundamental do ponto de vista daquilo que é a incidência das famílias face ao globo, do ponto de vista daquilo que é a perceção. Nota-se que a inflação média em Moçambique ou na cidade da Beira particularmente ronda aos cerca de 24%, comparando com a média global que é de 3%, ou com a Africa do Sul que apresenta uma taxa de 6%. Olhando para esta perspetiva, vemos agora que é um fosso grande do ponto de vista de cobertura do estilo de vida das famílias. Também podemos analisar um outro indicador de referência, que é a taxa de câmbio. Nós vamos assistir a uma depreciação acentuada do metical face ao dólar, e isto de alguma forma vai fazer com que o cenário do ponto de vista da competitividade desta cidade e as outras cidades ou países podemos dizer, podem piorar cada vez mais. Há uma referência muito gritante em que $1 está aproximadamente para 60.00MT e R1 para 5 meticais nos primeiros trimestres de 2018, segundo os boletins do Banco de Moçambique. Isto vai fazer com que nos indicadores provavelmente não faltem sinais positivos para aquilo que são as dinâmicas do crescimento económico na cidade da Beira. Um outro ponto muito importante que vai exactamente desempenhar um papel fundamental para o crescimento económico na
cidade da Beira é a questão das taxas de juros, porque é exactamente aquilo que é a contrapartida da utilização de capitais alheios. E a indicação mais abrangente na cidade da Beira, é que as taxas de juros rondam da relação entre os bancos comerciais, isto é, acima de 21%, demonstrando assim que os investimentos tendem a reduzir face ao elevado custo de obtenção de capital. Adicionalmente, as incertezas criadas pelas sinalizações do ambiente interno retraíram a captação de recursos financeiros, influenciando negativamente a implementação de projectos de investimentos. Portanto, são estes pontos que eu podia avançar para analisarmos o cenário do crescimento económico local. Pois para sabermos se a nossa economia local cresceu devemos olhar para todos esses elementos numa perspectiva macro. E também o efeito, a imagem, o sinal que capta essas variáveis também são reflectidas para a cidade da Beira. Então, é fundamental sim, mas também há que olhar a uma tendência sob ponto de vista de expansão, que é visível a construção de novas infraestruturas, estamos a falar da extensão de alguns bairros, que de facto é visível. Mas isso não espelha exactamente aquilo que é concretização do crescimento económico. Ora vejamos, falamos da deterioração da estrutura do custo de vida das famílias, dos sinais macroeconómicos na perspectiva de taxas de juros, taxa de câmbio, etc. podemos afirmar que a economia da cidade da Beira tende a registar um decréscimo. Porquê não podíamos ser pragmáticos em assumir que a economia na Beira não está a crescer, há esses indicadores que provam isto concretamente quando fizemos aqui menção das infraestruturas que estão a crescer, mas é fundamental olhar para este crescimento em relação a população e aos benefícios destas infraestruturas para a população. Porém, olhando para este cenário da economia “crescente decrescente” ainda é possível sonhar com uma economia local mais desenvolvida e estável. Porque a Beira como outras economias, outras cidades, outras vilas e distritos, também tem meios para crescer, mas dependemos de vários factores. Um deles é o Porto da Beira que deve desempenhar um papel fundamental na economia local, pois este é a razão da existência da cidade da Beira. Então, é possível olhar para o Porto da Beira como factor dinamizador para o crescimento económico na cidade da Beira? Em que perspectiva? Temos a questão da responsabilidade social que este mesmo Porto devia assumir, pelas empresas que la operam. Se nós pautarmos pelo modelo da responsabilidade social, isto pode criar maisvalia do ponto de vista do choque em diversos agregados económicos, para darmos suporte ao crescimento económico a nível da Cidade da Beira, porque a estrutura económica da cidade da Beira é exactamente composta na sua maioria por dois sectores, nomeadamente, sector secundário e sector terciário, falo concretamente do sector industrial e do sector de serviços e outras realidades. E para analisar o empenho desses sectores na contribuição para o crescimento económico da Beira e da nação, é preciso voltar um pouco a história. O passado nos ajuda a conhecer o presente e de seguida o presente faz-nos perspectivar o futuro. O sector empresarial a nível da Cidade da Beira é incipiente e em processo de formação. Quer dizer, não temos um sector formal já consolidado na cidade da Beira, porque este sector apresenta
uma combinação fraca de capital e a sua mãode-obra do ponto de vista de especialidade é fraca. A ausência de parcerias para reduzir custos e aumento dos seus capitais sociais, e ao mesmo tempo uma fraca fonte de recursos e alternativas ao financiamento. Então se olhamos para estes factores, fica claro que ainda precisamos de um sector empresarial robusto, consolidado e com perspectivas de melhoramento, assumindo aquilo que são os papéis fundamentais para o crescimento económico e social a nível da Cidade da Beira. Também devemos procurar mecanismos para inverter este quadro dos problemas aqui levantados. Numa perspectiva, é fundamental que o governo, estado desempenhe um papel fundamental no que tange as orientações de oportunidades, de incentivos e até mesmo de dinamismo, porque o sector de negócios é um sector que está em constante formação e precisa de capital inicial, é um sector que apresenta os problemas questionados que precisam de um incentivo do ponto de vista do estado, para estimular os autores que são parte fundamental ou força motriz para o desenvolvimento económico e social a nível da Cidade da Beira. Porque o estado tem que facilitar ou estimular o licenciamento de fontes de financiamento das PME’s e criar mecanismos para dar suporte a estrutura de financiamento mais adequada para o benefício das empresas. Referenciamos os sectores empresariais na perspectiva de PME’s porque grande parte das empresas ou da estrutura empresarial que congrega a Cidade da Beira, pertence a esta estrutura. Me arrisco inclusive em chamar as estatísticas que segundo o INE, 84% das empresas licenciadas na Beira pertencem as PME’s, então faz todo sentido colocar este desafio. Um facto que podemos verificar na estrutura dessas empresas, é que passam 10, 20 ou mais anos, e algumas PME’s continuam ainda PME’s. A questão que não quer calar é, quando é que essas empresas passarão para grandes empresas do ponto de vista de alcance? Então este é um papel fundamental em que o governo deve participar e apoiar este sector, porque este sector é fonte de captação de receitas a partir de impostos, taxas, etc. portanto o estado tem de criar políticas para criar mecanismos de alargamento das PME’s pois ao mesmo tempo o estado ganharia com as suas receitas, reduzindo assim o seu défice orçamental. Olhando para os impostos e taxas, estes constituem uma captação que as entidades públicas fazem sobre as entidades privadas. Os impostos e as taxas podem levar a perda de investimentos e consequentemente travar o crescimento económico. Nessa perspectiva, provavelmente isso poderá criar desestruturação do ponto de vista daquilo que é a consolidação do nível de desempenho das empresas. 20
Ora, verifica-se um grande impacto das novas taxas de arrumadores de navio na cidade da Beira recentemente aprovadas, isso cria de certa forma uma desestruturação a nível das empresas. E observamos que muitas vezes os responsáveis por tomar decisões o fazem com base em expectativas, e muitas vezes tais expectativas falham. No impacto do inesperado, isso causa retracção ou perda de investimento no que tange o crescimento económico e social a nível da Cidade da Beira. Uma outra questão que poderíamos fazer menção é que recentemente aprovou-se um decreto em 2016, que aponta para a rectificação da taxa aduaneira. Imaginemos que as empresas já planearam o seu ciclo de actuação económica, tudo numa perspectiva de um período bastante ajustado, 1 ou 2 anos, e de repente é estabelecida uma nova pauta aduaneira que vem contrastar essa planificação, isso pode criar obviamente um desequilíbrio na orientação do ponto de vista de vocação empresarial. Essa forma de operar leva-nos a um conceito muito clássico da economia, como o mercado de limão, marketing, selecções adversas e problemas das assimetrias das informações. Uma alternativa clara para amenizar as problemáticas do ponto de vista económico, é criar mecanismos de sinalização. Mercado de sinalização como chamamos em economia, é aquele que nos orienta sobre os prováveis espaços que os diferentes playerstanto do sector público como do sector privado, das diferentes acções que estes poderiam tomar dos prováveis constrangimentos que se aproximam. E por fim vale a pena lembrar que é preciso dinamizar as empresas locais. Porque São elas o factor dinamizador do crescimento económico. Essa foi uma análise sobre o crescimento económico na cidade da Beira e ficou o essencial sob o questionamento, precisamos trabalharmaisdoquejátrabalhamos? Na realidade, para que a nossa economia local cresça e todos saiam ganhando, o caminho é descobrir maneiras de aumentar cada vez mais a produtividade – e não a produção. Por:EquipeBeiraConnect
Publicado originalmente na edição Negócios no Chiveve – Maio 2018. Consultar a revista completa em PDF.

